Brenda Caroline Pereira Xavier é a principal suspeita de matar Carlos Felipe Camargo da Silva – Foto: Reprodução/Rede Sociais
O julgamento de Brenda Caroline Pereira Xavier, fotógrafa de 30 anos, começou nesta segunda-feira (20) no Tribunal do Júri de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Ela responde por homicídio triplamente qualificado e fraude processual na morte do namorado, o corretor de imóveis Carlos Felipe Camargo da Silva, ocorrida em 3 de março de 2024. A acusação aponta que o crime resultou de recusa ao término do relacionamento, com a vítima recebendo nove perfurações de faca na residência do casal, no bairro Ribeirão Verde.
Brenda admitiu os fatos em depoimento, mas invocou legítima defesa como argumento central de sua defesa. Presa preventivamente desde 3 de abril de 2024, ela cumpre pena na Penitenciária Feminina de Pirajuí, a cerca de 300 km de Ribeirão Preto. O processo, que dura mais de um ano, envolve análise de provas periciais e testemunhais coletadas pela Polícia Civil.
A decisão de levar o caso a júri popular foi proferida em setembro de 2024 pela 2ª Vara do Júri e das Execuções Penais de Ribeirão Preto. A sessão, iniciada às 10h, conta com sete jurados e pode se estender por até dois dias, dependendo do andamento das alegações.
Contexto do crime na residência do casal
Na noite de 3 de março de 2024, Carlos Felipe, natural de Praia Grande e residente em Ribeirão Preto há quatro anos, dirigiu-se à casa da mãe e do irmão com seus pertences. Ele expressou intenção de retomar a vida familiar após encerrar o namoro de quase um ano com Brenda.
O irmão da vítima, Bruno Camargo da Silva, relatou à polícia que Brenda chegou ao local minutos depois e solicitou uma conversa particular com Carlos do lado de fora. A discussão durou cerca de dez minutos, após o que o corretor anunciou aos familiares o desejo de reatar o relacionamento e retornar à moradia compartilhada no Ribeirão Verde.
Horas mais tarde, Bruno recebeu ligação da mãe de Brenda informando um acidente fatal, sem detalhes adicionais. Ao comparecer à UPA Norte, onde Carlos foi levado, confirmou-se que a vítima apresentava múltiplas lesões por arma branca e faleceu em decorrência delas.
Investigadores identificaram sangue espalhado por diversos cômodos da casa, incluindo um quarto com mobília danificada. O piso molhado sugeria limpeza recente, e a faca usada no ataque foi localizada e apreendida em buscas posteriores.
Trajetória das investigações policiais
A Polícia Civil de Ribeirão Preto concluiu o inquérito em menos de um mês, destacando evidências como laudos periciais e depoimentos de testemunhas. O delegado Rodolfo Latif Sebba indicou Brenda como autora principal, com base em vestígios materiais e na confissão parcial dela.
Três dias após o crime, em 6 de março, Brenda apresentou-se espontaneamente na delegacia central da cidade. Durante o interrogatório, descreveu o episódio como reação a agressão sofrida, alegando excesso doloso na defesa. Ela foi liberada inicialmente, mas o Ministério Público contestou a versão, solicitando prisão preventiva.
O Ministério Público denunciou Brenda por homicídio com qualificadoras de motivo torpe, emprego de meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa da vítima. Ademais, incluiu fraude processual pela suposta manipulação da cena, como tentativa de remoção de traços biológicos.
- Evidências chave: Nove ferimentos perfurocortantes no tórax e abdômen de Carlos.
- Testemunhas ouvidas: Irmão da vítima, mãe de Brenda e vizinhos do bairro Ribeirão Verde.
- Laudos periciais: Análise de DNA no sangue encontrado e exame toxicológico negativo para substâncias alteradoras.
A Justiça manteve a custódia cautelar, negando habeas corpus em abril de 2024, com base no risco de reiteração delitiva e na gravidade dos indícios.
Histórico pessoal das vítimas envolvidas
Carlos Felipe Camargo da Silva mudou-se para Ribeirão Preto aos 25 anos, buscando oportunidades profissionais no mercado imobiliário e estudos em administração. Ele atuava como corretor autônomo e mantinha hobbies como surfe, herdados da origem litorânea em Praia Grande.
A família descreveu Carlos como dedicado ao trabalho e à convivência familiar, residindo inicialmente com a mãe e o irmão antes de iniciar o namoro com Brenda. O relacionamento, iniciado em meados de 2023, durou cerca de nove meses e apresentava sinais de instabilidade, conforme relatos de conhecidos.
Brenda Caroline Pereira Xavier, também de 30 anos, exercia a fotografia profissionalmente, com portfólio focado em eventos e retratos locais. Residente em Ribeirão Preto há anos, ela não possuía antecedentes criminais prévios e colaborou parcialmente com as autoridades durante as apurações iniciais.
O casal compartilhava a casa no Ribeirão Verde desde o início do namoro, um bairro residencial de classe média na zona leste da cidade. Amigos relataram interações públicas harmoniosas, contrastando com as tensões privadas reveladas no inquérito.
Alegações da defesa e acusação no tribunal
A defesa de Brenda, liderada pelo advogado Alexandre Durante, sustenta que o ato resultou de confronto mútuo, com lesões recíprocas comprovadas por hematomas na ré. Eles argumentam excesso na reação, mas negam qualificadoras como motivo fútil ou crueldade exacerbada.
O promotor de Justiça Criminal enfatiza o desequilíbrio na agressão, citando a letalidade das nove facadas e a ausência de ferimentos graves em Brenda compatíveis com ameaça iminente. A fraude processual ganha peso pela evidência de lavagem do local, interpretada como obstrução à investigação.
Durante a fase de instrução, testemunhas de acusação e defesa foram inquiridas, incluindo peritos que atestaram a impossibilidade de defesa efetiva pela vítima. O júri avaliará se o homicídio configura dolo eventual ou se a legítima defesa prevalece como excludente de ilicitude.
O veredicto pode resultar em pena de 12 a 30 anos por homicídio qualificado, acrescida de um a quatro anos por fraude, conforme o Código Penal brasileiro. A sessão prossegue com debates orais, priorizando a imparcialidade dos jurados selecionados aleatoriamente.
Repercussão familiar e comunitária
A família de Carlos Felipe manifestou apoio à acusação, com o irmão Bruno atuando como assistente de Ministério Público. Eles destacam a importância de justiça célere para vítimas de violência doméstica, embora evitem declarações públicas detalhadas durante o julgamento.
Em Praia Grande, cidade natal da vítima, grupos locais organizaram vigília em março de 2024, pedindo rigor na apuração. A comunidade de Ribeirão Preto acompanha o caso via mídias locais, que cobrem o processo sem sensacionalismo.
Brenda permanece isolada na unidade prisional, com visitas reguladas e acesso a assistência psicológica. A defesa recorreu da pronúncia em setembro de 2024, mas o Tribunal de Justiça manteve a decisão de júri.
O caso ilustra padrões de violência em relacionamentos íntimos, com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicando 1.400 feminicídios em 2023, mas também crescentes registros de homens vítimas em contextos semelhantes.

