Goiânia poderia se chamar Petrônia. Em 1933, quando a nova capital ainda estava em construção, o jornal O Social promoveu um concurso para escolher o nome da cidade. Petrônia chegou a 105 votos em uma apuração publicada naquele ano, enquanto Goiânia teve apenas dois votos identificados pela documentação histórica. Mesmo assim, foi o nome derrotado que Pedro Ludovico transformou na denominação oficial da capital.
A decisão parece contraditória à primeira vista, mas a história do nome ajuda a explicar por que Goiânia acabou escolhida. A proposta não era apenas uma palavra inventada para batizar uma cidade nova. Ela carregava uma ideia de continuidade entre a antiga capital, Vila Boa, e o projeto político que nascia a mais de 100 quilômetros dali. Para o professor Alfredo de Faria Castro, autor da sugestão, Goiânia significava uma espécie de “Nova Goiás”.
Pedro Ludovico nunca deixou registrada uma explicação definitiva para ter ignorado o resultado da consulta. A própria Casa Civil de Goiás informa que os motivos permaneceram desconhecidos. Pesquisas acadêmicas, porém, apontam que o sentido histórico atribuído ao nome pode ajudar a compreender a decisão. Naquele momento, dar legitimidade à nova capital também significava mostrar que a mudança não apagaria a história de Goiás.
Petrônia venceu; Goiânia teve dois votos
O concurso “Como se deve chamar a Nova Capital?” começou em 5 de outubro de 1933. O Social aceitava sugestões de qualquer pessoa, independentemente de idade, sexo ou nacionalidade, e oferecia ao vencedor uma assinatura do jornal por dois anos. A primeira apuração publicada em 16 de novembro mostrava Petrônia com 105 votos. Anhanguera tinha 26; Heliópolis, 16; Crisópolis, 13; e Tupirama, 10.
Goiânia estava muito atrás. Pesquisa publicada pela Revista UFG mostra que, além do voto de Alfredo de Faria Castro, havia apenas outro voto identificado para o nome, dado pela professora Zanira Campos Rios. O levantamento afirma que Petrônia terminou como vencedora do concurso. O resultado, contudo, nunca teve força legal para obrigar o governo a seguir a preferência dos leitores.
Existe uma divergência documental sobre o número de votos de Petrônia. A Casa Civil e os documentos analisados pela UFG apontam 105 votos, enquanto a Prefeitura de Goiânia registra 68. A diferença não altera o fato histórico central. Petrônia venceu com ampla vantagem e Goiânia recebeu menos de dez votos.
Petrônia era uma homenagem a Pedro Ludovico
Petrônia foi proposta pelo poeta e juiz de Direito Léo Lynce, pseudônimo de Cyllinêo Marques de Araújo. A relação com Pedro Ludovico era explícita, mas a justificativa publicada no jornal tentou ampliar o significado do nome. Léo Lynce associou Petrônia também a Dom Pedro I, Dom Pedro II e São Pedro. O autor defendia ainda que o nome era simples, sonoro e adequado à cidade que começava a nascer.
A homenagem tinha peso político evidente. Pedro Ludovico era o principal articulador da transferência da capital e o personagem central da construção da nova cidade. Se aceitasse Petrônia, ele permitiria que seu próprio nome ficasse associado permanentemente ao projeto que comandava. Em vez disso, escolheu a proposta que quase ninguém havia votado.
Então de onde surgiu “Goiânia”?
Goiânia foi sugerida pelo professor Alfredo de Faria Castro, do Lyceu da Cidade de Goiás. Ele participou do concurso usando o pseudônimo Caramuru Silva do Brasil, identidade que manteve em segredo durante anos. Sua justificativa foi publicada por O Social em 12 de outubro de 1933. O argumento ajuda a entender por que a palavra tinha significado maior do que sua votação sugeria.
Alfredo defendia que o nome reunia significado regional, sonoridade, grafia simples e sentido histórico. Para ele, Goiânia deveria representar uma “Nova Goiás” e funcionar como prolongamento da histórica Vila Boa. A nova capital não precisaria romper nominalmente com a antiga para representar modernização. Ao contrário, poderia apresentar-se como continuidade da história goiana em um novo espaço urbano.
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Essa interpretação ganha peso porque a construção de Goiânia ocorria em meio a forte disputa política. Pedro Ludovico e seus aliados defendiam a transferência como símbolo de modernização, enquanto grupos ligados à antiga capital resistiam à mudança. Uma dissertação do Programa de Pós-Graduação em História da UFG conclui que o sentido histórico de “Goiânia” pode ter pesado mais que a votação do concurso. O nome ajudaria a legitimar a nova sede administrativa sem romper simbolicamente com Vila Boa.
“Goiânia” já existia antes da capital
O nome também tinha uma história anterior ao concurso. Um artigo acadêmico publicado pela Revista UFG relaciona o topônimo ao poema épico Goyania, de Manuel Lopes de Carvalho Ramos, lançado em 1896 no Porto, em Portugal. A obra é anterior à construção da capital em quase quatro décadas. Seu tema era Goiás e a formação histórica do território.
O estudo da UFG observa que Goiânia provavelmente é um caso raro de cidade cujo nome reproduz, de forma intencional ou não, o título de uma obra literária. O poema Goyania tinha 20 cantos e tratava de personagens ligados à ocupação de Goiás, entre eles Bartolomeu Bueno. O termo, portanto, não surgiu do zero em 1933. Ele já circulava como referência cultural ligada ao estado.
Isso reforça o argumento apresentado por Alfredo de Faria Castro. Goiânia não pretendia homenagear apenas uma pessoa. O nome funcionava como referência ao território, à história e à ideia de continuidade de Goiás. Petrônia, ao contrário, ficaria vinculada diretamente à figura de Pedro Ludovico.
Por que Pedro Ludovico escolheu Goiânia?
Não existe documento conhecido em que Pedro Ludovico diga: “escolhi Goiânia por este motivo”. A Casa Civil registra expressamente que ele não revelou a razão da escolha. Em 2 de agosto de 1935, o Decreto nº 327 simplesmente determinou a criação do município com o nome Goiânia. Dois anos depois do início das obras, a cidade que ainda aparecia em documentos como “nova Capital” finalmente ganhou denominação oficial.
A pesquisa histórica permite, no entanto, estabelecer uma hipótese sustentada em documentos. Ao analisar a justificativa de Alfredo de Faria Castro e o ambiente político da época, o historiador Edson Domingues de Araújo Júnior, em dissertação defendida na UFG, argumenta que o critério não parece ter sido a quantidade de votos. O valor estava no sentido histórico que “Goiânia” poderia adquirir. A expressão ajudava a conectar a cidade nova à história da antiga capital e, ao mesmo tempo, a dar legitimidade ao projeto de transferência.
Há ainda um elemento político. Ao rejeitar Petrônia, Pedro Ludovico também evitava batizar a capital com uma homenagem a si próprio. A documentação da Revista UFG observa que favoritismo em relação a Alfredo de Faria Castro também parece improvável, porque a identidade escondida sob o pseudônimo Caramuru Silva do Brasil só foi revelada anos depois. A escolha, portanto, continua sem uma resposta definitiva, mas não está completamente sem contexto histórico.
Uma “Nova Goiás” venceu uma cidade de Pedro
A ironia permanece quase um século depois. O nome mais votado remetia ao homem que liderou a construção da capital, enquanto o menos votado apontava para a identidade de todo o estado. Pedro Ludovico rejeitou Petrônia e adotou Goiânia. A decisão fez desaparecer a “cidade de Pedro” e consolidou a ideia de uma “Nova Goiás”.
A mudança também ajuda a entender a própria construção simbólica da capital. Goiânia pretendia representar modernidade, mas precisava nascer sem cortar completamente seus vínculos com a história goiana. O nome escolhido oferecia essa ponte. A cidade era nova; Goiás continuava no nome.
O Mais Goiás já mostrou como Campinas, que existia antes da nova capital, forneceu território, comércio e estrutura aos primeiros anos da cidade. A história do nome acrescenta outra camada a esse processo: até para romper com a velha ordem, Goiânia precisou recorrer à memória de Goiás. Leia a história de Campinas e sua participação na construção da capital.

