Quando Goiânia realizou o Batismo Cultural, em julho de 1942, o Colégio Santo Agostinho já tinha cinco anos de história. A escola começou as atividades em 1937, quando parte da nova capital ainda tinha ruas sem pavimentação, terrenos vazios e prédios públicos em construção. A primeira aula ocorreu em 7 de julho daquele ano, inicialmente em espaços improvisados, até a instituição chegar ao endereço da Rua 55, em 1941. A sequência transforma o colégio em testemunha de uma fase em que Goiânia ainda deixava de ser projeto para se tornar cidade.
A curiosidade aparece com mais clareza quando as datas são colocadas em ordem. A pedra fundamental de Goiânia foi lançada em 24 de outubro de 1933, enquanto a transferência oficial da capital de Goiás ocorreu em 1937, conforme a cronologia histórica da Prefeitura de Goiânia. O Batismo Cultural, cerimônia que apresentou oficialmente a nova capital ao país, aconteceu apenas em 5 de julho de 1942. O Mais Goiás já mostrou por que a celebração ocorreu nove anos depois do início da construção da cidade.
Colégio Santo Agostinho nasceu no ano da transferência da capital

O Colégio Santo Agostinho surgiu em 1937, ano decisivo para a instalação definitiva de Goiânia como capital. Registros das Agostinianas Missionárias indicam que as religiosas Esperança Garrido, Mercedes Iriarte e Maria Valvanera chegaram à cidade a pedido de Dom Emmanuel Gomes de Oliveira. O objetivo era colaborar com a Santa Casa de Misericórdia, então em construção, e criar uma escola para atender a população que começava a ocupar a nova capital. A história da congregação situa nesse movimento a origem da Comunidade Santo Agostinho e da instituição de ensino.
Pesquisa da Universidade Federal de Goiás também relaciona a criação da escola à formação da estrutura educacional da cidade. O estudo situa o Santo Agostinho entre as instituições implantadas quando Goiânia ainda organizava serviços básicos e recebia moradores transferidos de outras regiões. A primeira aula ocorreu em 7 de julho de 1937, segundo registros históricos posteriormente reunidos sobre a trajetória do colégio. A pesquisa disponível no repositório da UFG ajuda a reconstruir esse período.
A Goiânia daquele momento pouco lembrava a metrópole atual. Fotografias históricas mostram carros de boi trabalhando diante de construções modernas, grandes terrenos sem ocupação e vias ainda em formação. O fotógrafo Eduardo Bilemjian registrou parte dessa transformação entre as décadas de 1930 e 1940. O Mais Goiás recuperou imagens feitas por ele durante o nascimento da capital.
Até a administração estadual precisou funcionar de forma provisória durante a implantação de Goiânia. Antes da ocupação definitiva do Palácio das Esmeraldas, Pedro Ludovico chegou a despachar sob uma árvore enquanto as estruturas administrativas eram concluídas. O episódio ajuda a dimensionar as condições existentes quando as primeiras crianças começaram a estudar no Santo Agostinho. O Mais Goiás contou a história do local usado por Pedro Ludovico durante os primeiros anos da capital.
Primeiras aulas do Colégio Santo Agostinho foram improvisadas
O colégio também precisou se adaptar à falta de estrutura física da cidade nascente. Registro histórico preservado na Hemeroteca do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás informa que a primeira turma reunia estudantes do jardim de infância e das quatro primeiras séries do ensino primário. Com o aumento da procura, imóveis próximos foram utilizados para acomodar novas salas. A Hemeroteca do IHGG preserva parte dessa memória.
Em determinado momento, algumas turmas utilizaram salas do Lyceu enquanto a estrutura própria do Santo Agostinho ainda era organizada. A informação interessa à história do colégio porque mostra como instituições da nova capital precisavam compartilhar espaços durante a fase de implantação. O Lyceu não entra aqui como uma história paralela, mas como parte das soluções encontradas pela escola para continuar funcionando. A situação mudou em 1941, quando o Santo Agostinho se estabeleceu na Rua 55.
Outro edifício inaugurado naquele mesmo 1937 ajuda a visualizar a cidade em que a escola surgiu. O Grande Hotel abriu as portas em janeiro e se tornou uma das construções de referência da capital nascente. O prédio recebeu autoridades, técnicos e visitantes que chegavam a Goiânia enquanto outras estruturas ainda eram erguidas. O Mais Goiás já recuperou a trajetória do Grande Hotel e sua relação com o Centro.
A arquitetura construída nos primeiros anos permanece como uma das marcas históricas de Goiânia. Parte dos edifícios em Art Déco erguidos durante a implantação da capital recebeu proteção federal e integra atualmente o patrimônio da cidade. O Mais Goiás mostrou que 22 monumentos Art Déco de Goiânia são tombados pelo Iphan. O Santo Agostinho começou a funcionar enquanto esse conjunto urbano ainda estava sendo formado.
Rua 55 veio antes da inauguração oficial
Em 1941, o Santo Agostinho já ocupava o endereço da Rua 55 que marcaria sua trajetória nas décadas seguintes. Goiânia, porém, ainda não havia passado pelo Batismo Cultural que ficou associado à inauguração oficial da nova capital. A cerimônia começou no ano seguinte e reuniu exposições, apresentações, solenidades religiosas e atos públicos entre 1º e 11 de julho. A cronologia histórica da Prefeitura registra o período como parte da consolidação da cidade.
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O dia 5 de julho de 1942 concentrou alguns dos principais acontecimentos do Batismo Cultural. Entre eles estavam solenidades oficiais e a inauguração do Cine-Teatro Goiânia, além de atividades destinadas a apresentar a nova capital a visitantes de outras partes do país. Quando essas cerimônias ocorreram, os alunos do Santo Agostinho já frequentavam aulas havia cinco anos. O Mais Goiás também recuperou a história do Batismo Cultural em reportagem especial.
Um dos vestígios daquele evento permanece até hoje no Centro. O pórtico construído para a exposição realizada durante o Batismo Cultural ainda integra o patrimônio histórico da cidade e passou por processo de restauração. A estrutura fica no atual Instituto Federal de Goiás e ajuda a dimensionar fisicamente o período em que o Santo Agostinho já estava em atividade. O Mais Goiás acompanhou a restauração do pórtico do Batismo Cultural.
Salas do colégio receberam ensino superior

A Rua 55 ainda guarda uma segunda curiosidade relacionada à educação em Goiás. Quando a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras foi criada no fim da década de 1940, a instituição não tinha sede própria e utilizou dependências do Colégio Santo Agostinho. Os cursos incluíam áreas como História e Geografia, Letras e Pedagogia, voltadas principalmente à formação de professores. A Arquidiocese de Goiânia registra esse período na história do ensino superior católico em Goiás.
A faculdade integraria posteriormente o conjunto de instituições que deu origem à atual Pontifícia Universidade Católica de Goiás. A história institucional da PUC Goiás situa a Faculdade de Filosofia, criada em 1948, entre as estruturas que antecederam a universidade. Antes da existência de um campus próprio, portanto, parte desse ensino superior passou por salas de um colégio criado quando Goiânia ainda estava em construção. O episódio conecta duas etapas diferentes da expansão educacional da capital.
Os primeiros universitários estudavam em condições distantes da estrutura atual das instituições de ensino superior. Pesquisa preservada pela UFG reúne relatos de um salão dividido por biombos para acomodar cursos diferentes dentro do Santo Agostinho. O número de estudantes universitários ainda era pequeno e as instituições utilizavam os espaços disponíveis enquanto buscavam sedes próprias. O trabalho acadêmico disponível na UFG recupera essas memórias.
Ex-alunas chegaram à literatura e ao jornalismo
Entre os nomes com passagem documentada pelo Santo Agostinho está a escritora Lêda Selma de Alencar. Ela estudou do primário ao magistério na instituição e, ainda adolescente, participou da criação do jornal estudantil Juventude Agostiniana. Mais tarde, tornou-se poetisa, cronista, professora e presidente da Academia Goiana de Letras por dois mandatos. A Academia Goiana de Letras dedicou o ano cultural de 2022 à trajetória de Lêda Selma.
A jornalista e escritora Cássia Fernandes também relaciona a passagem pelo colégio ao interesse pela escrita. Em depoimento reunido em publicação da Universidade Federal de Goiás, ela recorda atividades escolares que estimulavam os estudantes a produzir textos desde a infância. Aos 12 ou 13 anos, uma atividade da escola a levou à Praça Cívica para entrevistar a escritora Lygia Bojunga. O relato preservado pela UFG associa aquela experiência à aproximação posterior com o jornalismo e a literatura.
A escritora Maria Helena Chein também passou pelo Santo Agostinho antes de seguir para o ensino superior. Depois, cursou Filosofia na Universidade Federal de Goiás e Letras Vernáculas na atual PUC Goiás, além de participar do movimento cultural goianiense. Sua trajetória inclui produção literária e atuação em grupos de escritores que marcaram a vida cultural da cidade nas décadas seguintes. Perfil publicado sobre os 50 anos de sua estreia literária registra a passagem pelo colégio.
O endereço permaneceu enquanto o Centro mudou
O Santo Agostinho continua na Rua 55, mas o espaço urbano ao redor mudou de função e escala ao longo de mais de oito décadas. O Centro que inicialmente concentrava repartições públicas, moradias, hotéis, escolas e parte do comércio perdeu moradores e recebeu edifícios de maior porte. A verticalização e a expansão da cidade levaram atividades para outras regiões e modificaram a relação dos goianienses com o núcleo original. O Mais Goiás mostrou como essas mudanças alimentam hoje o debate sobre revitalização e preservação do Centro.
A permanência de uma escola no mesmo eixo urbano desde 1941 cria um contraste com essas transformações. Muitas construções dos primeiros anos desapareceram, mudaram de função ou foram substituídas por novos empreendimentos. Outras sobreviveram e passaram a integrar o conjunto histórico associado à fundação e ao crescimento da capital. O Mais Goiás mostrou como o Centro histórico chega à atualidade em meio a novas tentativas de revitalização.
A curiosidade sobre o Santo Agostinho, portanto, não está apenas no fato de se tratar de uma escola antiga. Está na posição que ocupa na linha do tempo: as aulas começaram no mesmo ano da transferência oficial da capital, o endereço da Rua 55 veio antes do Batismo Cultural e suas salas chegaram a receber estudantes de uma faculdade que mais tarde ajudaria a formar a PUC Goiás. Quando Goiânia realizou as grandes solenidades de julho de 1942 para se apresentar oficialmente ao país, crianças já estudavam no Santo Agostinho havia cinco anos. Aos 89 anos, o colégio permanece como um marcador de uma cidade cuja própria história ainda estava sendo escrita quando suas primeiras turmas entraram em sala.

