Oficiais do exército da Guiné-Bissau depuseram o presidente Umaro Sissoco Embaló na quarta-feira, 26 de novembro de 2025, em Bissau, capital do país. A ação ocorreu horas antes da divulgação dos resultados das eleições presidenciais e legislativas realizadas no domingo anterior.
O autodenominado Alto Comando Militar para a Restauração da Segurança Nacional e Ordem Pública assumiu o controle total do Estado, suspendendo o processo eleitoral e fechando as fronteiras terrestres, marítimas e aéreas.
Embaló, detido inicialmente no palácio presidencial, confirmou a destituição em contato com veículos de imprensa estrangeiros.
A intervenção militar seguiu relatos de tiros próximos ao palácio e à comissão eleitoral, sem registro imediato de vítimas.
Declaração dos golpistas e transição prometida
O general Biagué N’Tam, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, justificou a ação como resposta a um plano de desestabilização envolvendo políticos e traficantes de drogas.
Ele anunciou a suspensão da Constituição e o fechamento de instituições republicanas até nova ordem.
No dia seguinte, 27 de novembro, o major-general Horta N’Ta-A foi empossado como presidente interino, com prazo de um ano para transição à democracia.
- Nomeação de Tomás Djassi como novo chefe do Estado-Maior das Forças Armadas;
- Fim do recolher obrigatório a partir de 28 de novembro;
- Garantia de tratamento adequado ao ex-presidente Embaló.
Histórico de instabilidade no país africano
A Guiné-Bissau registra o nono golpe ou tentativa desde a independência de Portugal em 1974.
Os eventos mais recentes incluem fracassos em 2022 e 2023, ambos contra Embaló, e alegações de conspiração em outubro de 2025.
O país, com cerca de 2 milhões de habitantes, enfrenta pobreza extrema e serve como rota de tráfico de cocaína da América do Sul à Europa.
Esses fatores agravam disputas políticas recorrentes.
A nação manteve forças da CEDEAO após o golpe de 2012, mas viu sua retirada durante o mandato de Embaló.
Reações regionais e internacionais
A Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) condenou o golpe e suspendeu a Guiné-Bissau de órgãos decisórios.
O bloco formou missão de mediação com líderes de Senegal, Serra Leoa, Togo e Cabo Verde para restaurar a ordem constitucional.
A União Africana exigiu a libertação imediata de Embaló e diálogo para estabilidade legal.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, expressou preocupação profunda e apelou por contenção de todas as partes.
Portugal, ex-potência colonial, pediu abstenção de violência e retomada das apurações eleitorais.
Disputa eleitoral que antecedeu a crise
As eleições de 23 de novembro ocorreram em meio a controvérsias sobre o mandato de Embaló, questionado pela oposição como expirado em fevereiro de 2025.
Tanto Embaló quanto o opositor Fernando Dias da Costa reivindicaram vitória no primeiro turno, apesar do sistema em duas rodadas exigir maioria absoluta.
Dias, apoiado pelo histórico PAIGC, alegou triunfo absoluto e acusou forças ligadas ao presidente de tentativa de manipulação na comissão eleitoral.
Ele se declarou livre das autoridades e pediu proteção da CEDEAO, UA e ONU.
Oposição e sociedade civil, como a Frente Popular, sugeriram que o golpe seria simulado para anular resultados desfavoráveis a Embaló.
Situação do ex-presidente e opositores
Embaló chegou ao Senegal em 27 de novembro via voo especial, mediado pela CEDEAO.
Fontes militares confirmaram que ele estava sob custódia, mas em bom estado de saúde.
O destino de Dias permaneceu incerto inicialmente, com relatos de tentativas de prisão frustradas.
Observadores internacionais, como o ex-presidente nigeriano Goodluck Jonathan, foram evacuados sem comunicação imediata.
Senadores liberianos em missão de observação relataram dificuldades de contato com colegas retidos em Bissau.
Contexto de golpes na África Ocidental
A região viu sucessivos golpes em Mali, Níger e Burkina Faso nos últimos anos, com governos militares aproximando-se da Rússia.
Esses eventos destacam fragilidades institucionais e disputas por recursos em nações vulneráveis.
Na Guiné-Bissau, o tráfico de drogas persiste como desafio à governança, influenciando alianças políticas.
O país mediou recentemente acordo de paz no conflito de Casamance, no Senegal, sob liderança de Embaló.
A CEDEAO reforçou apelos por retorno à democracia para evitar escalada regional.


