ex-auditor-fiscal Arnaldo Augusto Pereira – Foto: Reprodução/TV Globo
Autoridades policiais prenderam Arnaldo Augusto Pereira, ex-auditor fiscal da Prefeitura de São Paulo, na quarta-feira, 15 de outubro de 2025, em Mucuri, no sul da Bahia. Ele simulou a própria morte para evitar o cumprimento de pena de 18 anos por participação na máfia do ISS, esquema de corrupção descoberto em 2013. A operação conjunta entre polícias de São Paulo, Bahia e Espírito Santo desmontou a farsa após meses de monitoramento.
Pereira confessou ter pago mais de R$ 40 mil por um atestado de óbito falso e documentos de identidade alterados. O golpe permitiu que ele vivesse sob nome falso no condomínio onde foi capturado. A Justiça havia registrado sua suposta morte em 10 de julho de 2025, em Salvador, o que suspendeu temporariamente ações judiciais contra ele.
Investigadores identificaram inconsistências nos registros civis durante verificações rotineiras de foragidos. Pereira criou perfis online em nome de familiares para manter a ilusão de falecimento. A prisão ocorreu quando ele saía de residência, com apreensão de itens que confirmaram a fraude.
Operação conjunta revela detalhes da captura
Polícias civis e militares de três estados coordenaram a ação desde julho de 2025. Equipes monitoraram endereços ligados a Pereira na Bahia por duas semanas. A localização exata veio de cruzamento de dados de inteligência do Ministério Público de São Paulo.
Agentes da Rondesp Extremo Sul da Bahia apoiaram a abordagem em Mucuri. Pereira não resistiu à prisão e foi levado para interrogatório imediato. Documentos falsos encontrados em sua posse incluíam carteira de identidade e comprovantes residenciais.
O Gaeco-Sul, grupo de combate ao crime organizado, liderou a fase final da operação. Informações preliminares indicam que Pereira recebia apoio logístico de contatos não identificados. A transferência para São Paulo ocorreu no dia seguinte à detenção.
Esquema da máfia do ISS e histórico de condenações
A máfia do ISS atuou entre 2007 e 2013 na Prefeitura de São Paulo, desviando mais de R$ 500 milhões em propinas. Auditores fiscais cobravam valores ilegais de construtoras para reduzir tributos municipais. O esquema envolveu dezenas de servidores e empresários, com investigações iniciadas pelo Ministério Público.
Pereira atuou como subsecretário de Arrecadação, facilitando liberações irregulares de alvarás. Em 2019, ele recebeu a primeira condenação por concussão e lavagem de dinheiro, totalizando 18 anos. Uma delação premiada firmada em 2021 foi anulada por mentiras comprovadas, elevando a pena para mais de 45 anos somados em processos distintos.
Autoridades estimam que o grupo arrecadou R$ 1,1 milhão só em um empreendimento em Santo André. Prisões anteriores de Pereira ocorreram em 2019 e 2021, mas ele fugiu após decisão do STJ em agosto de 2025. O caso reabriu apurações sobre falhas em registros de óbito.
- Principais crimes imputados: concussão, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro.
- Valor total desviado: superior a R$ 500 milhões em propinas.
- Número de envolvidos identificados: cerca de 50, incluindo fiscais e construtores.
- Impacto fiscal: prejuízo aos cofres públicos de São Paulo estimado em bilhões ao longo dos anos.
Fraude nos documentos e confissão de Pereira
Pereira obteve o atestado falso por meio de intermediários com histórico criminal. O documento indicava óbito por causas naturais em uma residência na Liberdade, bairro periférico de Salvador. Ele usou a certidão para transferir bens a familiares e suspender execuções penais.
Durante o depoimento, o ex-auditor admitiu criar e-mails em nome da esposa para simular comunicações pós-morte. “Minha esposa não sabe que eu estou morto”, declarou ele aos investigadores. A família residia em outro estado, sem conhecimento da simulação.
O Conselho Regional de Medicina da Bahia investiga o médico responsável pelo atestado. Registros cartorários revelaram assinaturas irregulares no óbito. Pereira planejava estender a farsa indefinidamente, trabalhando informalmente na região.
Autoridades apreenderam celulares e computadores que continham evidências digitais da fraude. Análises forenses confirmam edições em fotos e metadados de arquivos. O custo total da operação de falsificação ultrapassou R$ 40 mil, pagos em parcelas.
Monitoramento e inconsistências que levaram à queda
Equipes de inteligência notaram movimentações bancárias atípicas em contas ligadas a Pereira. Apesar do óbito registrado, transações continuaram em endereços baianos. Cruzamentos com sistemas de vigilância facial aceleraram a localização.
Pereira frequentava uma paróquia local, onde foi filmado em cerimônias recentes. Moradores do condomínio relataram a presença de um “novo vizinho” sem histórico local. Esses relatos anônimos complementaram dados policiais.
A operação evitou fugas adicionais ao isolar acessos ao imóvel em Mucuri. Pereira planejava deslocamento para o Espírito Santo, segundo indícios iniciais. A prisão preventiva foi convertida em definitiva pelo juiz responsável.
Consequências judiciais imediatas
Pereira enfrenta agravantes por fraude processual e uso de documento falso. A pena pode aumentar em até 12 anos adicionais. Transferido para presídio em São Paulo, ele aguardará audiências de custódia.
O Ministério Público requereu bloqueio de bens remanescentes. Familiares foram ouvidos como testemunhas, sem indícios de cumplicidade. O caso integra força-tarefa contra corrupção municipal.
Investigações prosseguem para identificar cúmplices na falsificação. Autoridades planejam audiências públicas sobre vulnerabilidades em registros civis. A delação revogada de Pereira será reavaliada em novo processo.
Aspectos da simulação revelados em interrogatório
Durante meses, Pereira manteve rotina discreta em Mucuri, evitando contatos com São Paulo. Ele alterou aparência física e usou veículos alugados para deslocamentos. A farsa incluiu postagens falsas em redes sociais gerenciadas por terceiros.
Confissões detalham contatos com falsificadores em Salvador. O grupo cobrava taxas por “serviços completos” de ocultação. Pereira recebia remessas financeiras de contas offshore para sustento.
A esposa, ao ser notificada, confirmou ausência de comunicações desde julho. Ela residia em São Paulo com filhos, gerenciando bens transferidos. Psicólogos avaliam impactos emocionais na família, sem detalhes públicos.
Autoridades divulgam que a simulação durou exatos três meses até a detenção. Evidências digitais recuperadas incluem roteiros de fuga abortados. O episódio destaca necessidade de protocolos rigorosos em certidões de óbito.


