Empresária que morreu após aplicação de PMMA em Goiás recebeu orientações médicas diferentes das ‘tradicionais’ para o procedimento

Redação
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Empresária que morreu após aplicação de PMMA em Goiás recebeu orientações médicas diferentes das ‘tradicionais’ para o procedimento

A família de Isabel Cristina Oyama Jacinto Gonzaga, de 59 anos, que morreu após aplicação de polimetilmetacrilato (PMMA) nos glúteos, disse que a empresária recebeu orientações pós-operatórias diferentes das ‘tradicionais’ adotadas por profissionais que realizam o referido procedimento. A empresária morreu no último domingo (8/3) após complicações de saúde dias depois de remodelação glútea realizada no Instituto de Longevidade, em Goiânia. A Polícia Civil aguarda os laudos periciais para constatar se a morte tem relação com o procedimento ou se houve erro médico.

O Mais Goiás teve acesso a protocolos de orientações pós-operatórias utilizados por médicos do Instituto de Longevidade e identificou divergências nas recomendações dadas a Isabel e ausência de algumas orientações presentes em outros protocolos para o mesmo tipo de procedimento.

Um dos pontos que mais chama atenção é a orientação sobre sentar após o procedimento. Em um protocolo utilizado por outra profissional da área, pacientes são orientadas a não se sentar por 72 horas após a bioplastia glútea. Já nas orientações fornecidas pela médica Eline Corrêa para Isabel Cristina, a recomendação foi diferente: o documento informa que a pessoa pode sentar normalmente, respeitando apenas o conforto nos primeiros dias.

Outra diferença aparece no uso de antibióticos no pós-operatório. No primeiro protocolo analisado, há recomendação explícita para manter antibiótico por quatro dias após o procedimento, além do uso de pomadas e medicamentos específicos para hematomas. Já nas orientações atribuídas à médica responsável pelo procedimento de Isabel, não há menção direta ao uso de antibiótico nas recomendações gerais, apenas a indicação de que as medicações seriam enviadas posteriormente.

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Isabel Cristina Gonzaga, de 59 anos, morreu após complicações de procedimento estético com PMMA em clínica de Goiânia (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Os documentos também diferem quanto ao detalhamento das possíveis complicações. Em um dos protocolos, há alertas específicos sobre sinais de risco, como região quente, secreção purulenta, dor excessiva, hematomas ou seromas, orientando que o paciente procure atendimento caso esses sintomas apareçam. Nas orientações fornecidas para a empresária, no entanto, os sintomas citados como esperados incluem apenas dor leve, sensação de peso, inchaço e sensibilidade na região.

Outro ponto distinto está no acompanhamento médico após o procedimento. Enquanto um dos protocolos recomenda retorno entre 90 e 120 dias, nas orientações atribuídas à Dra. Eline Corrêa esse prazo não aparece de forma explícita.

Falta de exames

A servidora pública Jéssica Keller, filha de Isabel Cristina denunciou a falta de exames adequados antes de um procedimento estético com PMMA. Segundo ela, a mãe tinha diabetes, mas a condição não estaria controlada no momento em que os exames foram apresentados para a médica responsável pelo procedimento. “Eles falam que o procedimento só é feito com diabetes controlada. Mas por que não fizeram uma conduta individualizada com a minha mãe? Eu levei os exames e a diabetes dela nem controlada estava. Ela nem poderia estar fazendo esses exames pré-procedimento”, afirmou.

A filha também diz que a Isabel só teria sido examinada presencialmente pela Eline Corrêa no dia da aplicação do PMMA. Todas as consultas antes do procedimento foram feitas online.

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De acordo com a família, cerca de cinco dias após o procedimento, Isabel começou a apresentar dores intensas e acúmulo de líquido na região onde o produto foi aplicado. Ela retornou ao Instituto aproximadamente nove dias depois, quando foi realizada uma drenagem.

Durante o procedimento também foi retirada uma quantidade de sangue, e a médica teria comentado que poderia ter atingido um vaso sanguíneo. “Quando minha mãe voltou lá, não tiraram só o seroma. Tiraram seroma e sangue. A médica falou que podia ter “pegado um vasinho”. Minha mãe sendo diabética, por que não entrou com anticoagulante naquele momento?”, questionou.

Isabel morreu no domingo (08) após dias de internação em um hospital de Anápolis.

Homenagens

O vereador Júnior Gonzaga prestou uma homenagem emocionada à mãe. Em publicação nas redes sociais, o parlamentar falou sobre a dor da perda e destacou a importância da mãe em sua vida.

“A dor da sua partida é imensa, mas sou grato a Deus por ter me permitido ser seu filho e por ter vivido tantos momentos ao seu lado. Seu amor continuará sendo minha luz, meu guia e minha lembrança mais preciosa. Descanse em paz, minha mãe. Sua missão aqui foi cumprida com amor, dignidade e dedicação. Um dia vamos nos reencontrar. Até lá, levarei você para sempre dentro do meu coração.”, escreveu o vereador.

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“Seu amor continuará sendo minha luz”, diz vereador ao homenagear mãe que morreu após procedimento estético com PMMA (Foto: Reprodução/Instagram – Júnior Gonzaga)

Jéssica Keller também relatou o momento em que ouviu a mãe dizer que iria ficar tudo bem pouco antes da piora no quadro de saúde. “Todas as vezes que eu quase morri, a senhora me dizia isso e eu sempre ficava bem. Mas não foi o que aconteceu. Não ficou nada bem. Agora estou aqui sem a senhora, sem seu abrigo, sem seu amor e com um vazio enorme no meu coração”.

O empresário Carlos Gonzaga usou a música “Senti Saudade de Você”, da dupla Henrique & Juliano, para homenagear a esposa. A despedida foi publicada nas redes sociais em um vídeo que reúne fotos do casal e da família em momentos de lazer. Na publicação, o empresário escreveu apenas “Saudades” e deixou uma mensagem direta à companheira: “Você deixou o guerreiro sem chão”.

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Marido de Isabel Cristina usa música para homenagear esposa que morreu após procedimento com PMMA (Foto: Reprodução/Redes Sociais – Carlos Gonzaga)

Conduta média é analisada

Em nota, o Instituto de Longevidade informou que Isabel possuía condições de saúde pré-existentes, como diabetes mellitus, hipertensão arterial e terapia de reposição hormonal, fatores que poderiam ter influenciado na evolução do quadro clínico. Segundo a clínica, a análise inicial dos registros médicos indica “ausência de nexo causal entre o procedimento com PMMA e o desfecho clínico”.

A instituição também informou que a conduta da médica responsável, Dra. Eline Corrêa, está sendo analisada internamente e que permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.

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O Mais Goiás procurou a médica responsável pelo procedimento para que ela se manifestasse sobre os questionamentos apresentados pela família, incluindo a realização de exames pré-operatórios, o acompanhamento da paciente após o procedimento e as orientações médicas adotadas no caso. Também questionou em que fase está a investigação interna sobre a conduta médica da Dra. Eline Corrêa. No entanto, até o fechamento desta reportagem, não houve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.

O caso segue sob investigação da Polícia Civil.

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