O anúncio da localização do corpo da goiana Letícia Oliveira Alves, que constava na Difusão Amarela da Interpol, trouxe à tona uma ferramenta utilizada mundialmente para encontrar desaparecidos, mas pouco divulgada e até mesmo conhecida. Pensando nisso, o Mais Goiás preparou uma série de reportagens de goianos que estão desaparecidos e são procurados internacionalmente em 198 países.
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Ao todo, sete goianos possuem cartaz divulgado na lista pública da cooperação internacional. Uma das pessoas com status de desaparecido é a estudante de enfermagem Mayra Silva Paula, que sumiu, aos 20 anos, no dia 4 julho de 2009. Quase 18 anos depois, a família de Mayra denuncia que o caso caiu no esquecimento devido à ineficácia do Estado naquele período, assim como do Ministério Público Federal (MPF), Força Nacional e Polícia Federal (PF).
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“Inicialmente, a investigação ficou a cargo da Polícia Civil de Goiás, por meio da Delegacia de Homicídios de Goiânia. Tentaram por todas as formas encontrar a Mayra e nunca houve êxito. O processo foi encaminhado para a Justiça Federal, acreditando que a Mayra tinha saído do país, se tinha sido vítima de tráfico humano. O MPF fez algumas pesquisas, mas não teve notícia do paradeiro dela, não teve notícia da saída dela do país. Então arquivaram o processo”, explica o advogado da família Breyner Silva.

Torpedo
Antes de arquivar a investigação em 22 de outubro de 2019, foi feito um minucioso trabalho e a jovem chegou a ser incluída na Difusão Amarela, mas o cartaz não precisou onde ela desapareceu ou em qual país poderia estar. Dados de cartórios e unidades hospitalares também foram analisados para tentar identificar se Mayra chegou a dar à luz no período em que estava desaparecida. No entanto, nenhuma pista foi encontrada.
O último contato conhecido da jovem ocorreu na madrugada de um sábado, depois de atender uma ligação telefônica de um telefone público (orelhão), às 00h45. Ao receber a ligação do aparelho que ficava em frente ao prédio onde dividia apartamento com outras três amigas, no setor Pedro Ludovico (em Goiânia), ela decidiu descer até a portaria e, desde então, nunca mais foi vista.
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Apenas um torpedo supostamente enviado pela estudante à amiga foi identificado após o desaparecimento. Na mensagem, de acordo com a mãe, Edlamar Rosário da Silva Oliveira, Mayra disse ter deixado uma carta para a matriarca no apartamento onde morava. No documento, ela informou estar grávida – Edlamar não sabia -, pedia desculpas e afirmava amar a mãe e a irmã, então com seis meses de vida, além de outros membros da família.
“Ela disse que tentou resolver o problema, mas não conseguiu. No primeiro momento, a gente pensava que ela tinha se suicidado, mas suicida a gente acha o corpo. Ela não voltou para casa porque engravidou e ficou receosa de me contar, pensou que talvez eu não aceitasse esse fato”, desabafa Edlamar.
De acordo com ela, a filha estava com viagem programada para Nova Glória, onde a família mora, no dia em que sumiu. Inclusive, chegou a informar às amigas antes de desaparecer que iria com o então namorado, um policial militar, para a casa da mãe.
“Estava esperando aqui em casa a chegada, só que ela não chegou. Fiz muitas ligações para o celular dela, mas não atendia. Nas férias, todas as férias, os feriados maiores, ela vinha para casa. Só que neste 3 de julho, ela não retornou”, relembra.
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Policial investigado
Apesar de ser o principal suspeito do crime, o policial foi inocentado devido a falta de provas que comprovem qualquer envolvimento dele no desaparecimento. Na época, uma amiga de Mayra contou à polícia que a jovem chegou a confidenciar que o namorado havia sugerido que fosse feito um aborto, mas que a ideia foi descartada pela própria estudante, que pensava em construir uma família com o PM.
O próprio jovem, em vários depoimentos prestados à polícia, confirmou frequentar o apartamento em que Mayra morava e que chegaram conversar sobre a gravidez. Na conversa, de acordo com ele, Mayra estaria muito nervosa e teria dito: “Ou você me leva, ou deste jeito [grávida] eu não apareço na casa da minha mãe sozinha”.
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No depoimento do dia 21 de outubro de 2009, o namorado confirmou que tinha ido à residência da namorada antes de ela desaparecer, enquanto se preparava para um plantão na Festa de Trindade, que iniciou às 13h e terminou às 23h, conforme escala de trabalho. Processos obtidos pelo Mais Goiás mostram que o PM afirmou ter saído de Trindade às 23h15, na companhia de um colega, que confirmou a informação.
Ele teria passado e deixado o companheiro na casa dele, no Setor Crimeia Oeste. Neste intervalo, ele troca um torpedo com Mayra, às 23h49. Foi por volta desta hora que a dona do apartamento relatou à polícia ter visto o carro dele na frente do prédio, um dia antes de Mayra desaparecer.
“No dia que ela desapareceu, ele chegou na cidade sozinho. A família dele mora aqui. Conversei várias vezes com ele, ele falou que não sabia dela mesma. A família dele fala que ele não sabe dela”, conta Edlamar.

Pesadelo
Edlamar recorda que por muito tempo o número de Mayra chamava, até que em 2010, o número foi cancelado e passou para outra pessoa. Segundo ela, conviver sem saber o paradeiro da filha é um pesadelo sem fim.
“Foi só tristeza na minha vida. Nunca mais eu vivi, sobrevivo. Nunca mais tive uma vida tranquila. São noites sem dormir, preocupada, sem saber de nenhuma notícia”, concluiu.
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Outros goianos desaparecidos
Assim como Mayra, outros seis goianos constam na lista pública da Difusão Amarela. São eles:
- Rosana Ferrari Pandim: natural de São Paulo, a mulher desapareceu aos 11 anos de idade, em Goiânia. A data do desaparecimento, segundo a Interpol, foi em 23/11/1973. Atualmente, ela está com 64 anos de idade. O possível país onde Rosane possa estar não consta na lista. A Polícia Civil de Goiás não tem registro da mulher no banco de dados da corporação.
- Marcelo Gomes de Souza Ramos: natural de Anápolis, o desaparecimento do homem foi registrado em 21/11/2012, quando ele tinha 30 anos. Atualmente com 44 anos, a Interpol acredita que ele possa ter passado pelo México, Estados Unidos ou Guatemala. Marcelo, que é fluente em inglês, também não consta no banco de dados da PC.
- Denis Carlos Mendonça: natural de Uruaçu, Denis desapareceu no dia 29/03 de 2023, na França, aos 34 anos. Atualmente com 48 anos, o paradeiro dele é indefinido. A Polícia Civil não tem registro no banco de dados da corporação.
- Juliana Pereira de Morais: natural de Goiânia, a criança de nacionalidade brasileira e paraguaia, desapareceu quando tinha apenas 1 ano de idade em 13/04/2017, em San Ignacio de Loyola, no Paraguai. Hoje, com 10 anos, a polícia acredita que ela possa ter passado pela Argentina e pelo próprio Paraguai depois de ser sequestrada. A Polícia Civil não tem registro dela em Goiás.
- Luciano Tadeu Rodrigues Junior: natural de Goiânia, o jovem de 32 anos desapareceu em 14/07/2022, aos 28 anos, em Goiânia. A Interpol acredita que ele possa ter passado pela Venezuela e pelo México. Apuração do Mais Goiás aponta que ele atuava como mula do tráfico, tendo desaparecido durante uma viagem exercendo essa função na fronteira da Venezuela com o México.
- Maycon Eder Alves de Jesus: natural de Goiânia, o homem desapareceu aos 23 anos no dia 03/08 de 2017. Atualmente com 32 anos, o jovem tentou entrar de forma ilegal nos Estados Unidos com a ajuda de coiotes, mas acabou desaparecendo na fronteira com o México. A Interpol acredita que ele passou pelos Estados Unidos, Bahamas e/ou República Dominicana.


