(O Globo) Apesar do apelido que remete à classe dos roedores, Ratinho Junior está mais para um gato atravessando uma mesa de cristais, define um aliado. Cauteloso, avesso a bolas divididas e influenciado pela família — principalmente o pai, de quem herdou o nome político —, o governador do Paraná surpreendeu até os aliados mais próximos ao anunciar a desistência do voo presidencial, que parecia nas alturas ao longo de março.
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A renúncia ao projeto nacional partiu de pedidos da família, que quis evitar a exposição intrínseca à campanha presidencial, e também teve nuances políticas locais como fator adicional. A filiação ao PL de Sergio Moro, ex-juiz da Lava-Jato que concorrerá ao Palácio Iguaçu pela sigla de Flávio Bolsonaro, fez Ratinho temer dois baques: a derrota do PSD na eleição estadual e um desempenho ruim dele próprio no Paraná na disputa pelo Planalto.
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Encontrar o chefe do Executivo na sede do governo, no Centro Cívico de Curitiba, era tarefa árdua no último mês. Foram muitas as viagens a São Paulo e Brasília voltadas para a construção da candidatura. Todos sabiam que o paranaense despontava como o favorito do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab. Anunciá-lo era pura questão de tempo. Até que, na manhã da última segunda, o telefone do dirigente tocou, e Ratinho o surpreendeu com a notícia.
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Antes de falar com Kassab, o agora ex-presidenciável comunicou a decisão a alguns políticos de seu núcleo duro, como Guto Silva, secretário de Cidades, e Marcio Nunes, de Agricultura. Depois, participou de um almoço com mais de 30 deputados e nada falou sobre o recuo, que seria tornado público horas depois.
Apesar de ter mais de 80% de aprovação no governo, Ratinho percebeu que Moro ameaçava a vitória do candidato apoiado por ele, ainda indefinido. A fim de controlar mais o processo sucessório, vai continuar à frente da gestão até o fim do ano. Na projeção nacional, o medo era acabar tendo um desempenho exíguo até entre os paranaenses, dado que Flávio poderia se beneficiar do “voto útil” da direita.
A escolha pela desistência, que abriu espaço para Ronaldo Caiado no PSD — Eduardo Leite corre por fora —, foi um movimento discreto, centrado no seio familiar. Quando o governador havia decidido encarar a eleição, o pai abraçou o projeto, a despeito da preocupação com as implicações trazidas pela visibilidade da campanha. Na hora da verdade, repensou.
Na véspera da decisão, Ratinho tinha se reunido com aliados e até com o marqueteiro, e tudo parecia normal. Projetaram a empreitada eleitoral sem sinais de recuo. Foi à noite, em casa, que o pai e a família deram o ultimato. O apresentador reforçou a apreensão quanto à lupa que seria colocada em cima dos negócios familiares, hoje um império que transcende o mundo das comunicações, e também com questões pessoais que usariam contra eles. Indicou ainda que a eleição seria agressiva e que o bolsonarismo o acusaria de dividir a direita.
Pai presente
Embora tente minimizar, a estrela do Programa do Ratinho é peça central na carreira do filho — a começar pelo nome que Juninho, como é chamado na família, decidiu levar às urnas. Em anos eleitorais, aparece nas campanhas e põe dinheiro. Dos R$ 964,5 mil arrecadados por Junior em 2002, quando concorreu pela primeira vez a deputado, 90% saíram do bolso do comunicador. Desde então, não deixou de irrigar as candidaturas.
Com 11,9 milhões de pessoas, o Paraná tem 399 municípios. Jandaia do Sul, no Norte, é a origem de Carlos Roberto Massa, o Ratinho pai. É uma região de terra vermelha, fértil para a agricultura — característica explorada pelos ingleses, colonizadores daquele canto há pouco mais de 100 anos, e que hoje o empresário e sua família bem aproveitam. Apesar de ter passado a maior parte da vida em Curitiba, Junior se classifica como “pé vermelho”, forma orgulhosa de chamar quem pisa e labuta naquele solo retinto.
Além do conglomerado midiático composto pela Rede Massa, afiliada do SBT no estado, e dezenas de rádios, Ratinho construiu patrimônio calcado no agronegócio — milho, soja e café, por exemplo. Na TV, o salto veio ao comprar do ex-governador Paulo Pimentel, avô do atual prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel (PSD), as emissoras que virariam em 2008 a Rede Massa.
Famílias tradicionais dominam a política do Paraná. Estrangeiros a esse universo, os Massa acabaram, por outros meios, criando uma dinastia própria, que junta a força midiática e econômica do pai ao sucesso político de Junior. É consenso por lá que, num estado sem tradição de produzir presidenciáveis, só existiu o projeto nacional do governador por causa da grife Ratinho, que extrapola o estado.
— O nome abre portas, claro, mas é o trabalho que as mantém abertas — defende o prefeito Eduardo Pimentel.
Uma vez no posto de governador, conquistado em 2018, o herdeiro do apresentador construiu marcas em diferentes frentes e ultrapassou 80% de aval. Arrecadou dinheiro por meio da venda de empresas públicas, política criticada pela oposição, e apostou em investimentos espalhados pelo estado.
Um dos orgulhos da gestão é a melhora no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o Ideb, alcançando o primeiro lugar geral. Em outra frente educacional, notabilizou-se por um tema caro ao bolsonarismo: o estado é o que mais tem escolas cívico-militares, com 345, e também entregou unidades à iniciativa privada.
— A política do Ratinho é essa, ele transformou o Paraná em um lugar de Estado mínimo. Privatizou tudo que o estado tinha, até escolas — diz o líder da oposição na Assembleia e presidente do PT no estado, Arilson Chiorato.
A única derrota eleitoral de Ratinho Junior até hoje foi em 2012, para a prefeitura de Curitiba. Estava precificado, nos últimos tempos, que a presidencial seria a segunda. Dependendo do desempenho, no entanto, sairia maior do que entrou. Foi o que aconteceu naquele ano, quando acabou convocado pelo governador Beto Richa (PSDB) para assumir o Desenvolvimento Urbano, atual Secretaria de Cidades, à qual cabe enviar dinheiro para investimentos aos quase 400 municípios do estado.
A secretaria é conhecida como uma notória “fazedora” de governadores. Para um prefeito de cidade pequena, estar próximo do secretário é mandatório. Garante asfalto, iluminação nova ou campinhos de futebol, por exemplo.
O atual chefe da pasta, Guto Silva, era o favorito de Ratinho para a sucessão, mas a dificuldade de se viabilizar causou novas incertezas, e até o prefeito Pimentel, ainda em primeiro mandato, passou a ser considerado. Outro que tenta espaço é o presidente da Assembleia Legislativa, Alexandre Curi, também do PSD.
‘Nome e sobrenome’
Aquela eleição de 2012 foi politicamente traumática para os Massa. Saíram com a percepção de que Curitiba não os aceitava. Junior constatou que fazia mais sentido cobiçar o Palácio Iguaçu, do outro lado da Praça Nossa Senhora de Salete, ao qual só se chega com a força do interior.
A disputa também foi decisiva para a relação entre o empresário e o PT se romper. Então ministra da Casa Civil de Dilma Rousseff, Gleisi Hoffmann frustrou a expectativa de Junior e do pai ao declarar apoio ao adversário deles no segundo turno, Gustavo Fruet. No horário eleitoral, disse que a mudança tinha “nome e sobrenome”. Era um recado sutil, mas cristalino, ao candidato que usa nas urnas o apelido Ratinho e o agnome Junior.
O apresentador havia aparecido na propaganda do filho, no primeiro turno, para dizer que Junior contava com apoio de seu “amigo” Lula. Rompido, o dono da Rede Massa virou nos últimos anos um entusiasmado aliado de Jair Bolsonaro — mais do que o filho, sempre calculista nos acenos.
Superada a frustração curitibana, Junior construiu o projeto estadual. Um dos mantras que prega — genérico, mas sintomático do perfil ensaboado — é o de que trabalha com “metodologia, não ideologia”. Foi com método, enfim, que deixou para trás a ambição nacional e preferiu não derrubar os cristais sobre a mesa, sejam eles políticos ou familiares.

