Após dois episódios de invasão a condomínios do setor Bueno, em Goiânia, na semana passada, o Mais Goiás procurou o consultor de segurança Rodrigo Muniz, especialista no assunto, e ouviu dele manifestações de preocupação com a forma com que síndicos e gestores prediais estão lidando com o problema. Rodrigo faz um alerta que precisa ser ouvido: para ele, os condomínios hoje estão mais inseguros do que eram anos atrás.
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“Muitas pessoas procuram condomínios e prédios para se sentirem seguros, mas te faço uma pergunta: será que os condomínios e prédios estão seguros? Na minha avaliação, não”, avisa Rodrigo.
O principal erro cometido é a substituição mal calculada de funcionários por tecnologia. Muitos prédios dispensam vigilantes e aderem à portaria remota – uma solução que, embora seja mais barata, pode expor o condomínio a riscos desnecessários. “Na portaria remota, o operador de numa central de monitoramento à distância tomando conta de mais de 100, 200 condomínios. Mesmo com a tecnologia, acontecem invasões. Então o mais correto é o que? Ter 50% tecnologia, 50% fator humano capacitado e treinado”, recomenda o consultor.

Rodrigo também chama atenção para necessidade de se estudar o comportamento padrão dos criminosos que agem na região. “Qual o tipo de ferramenta o bandido está usando? Em qual horário em que estão praticando o crime? Em cima dessas informações, o gestor vai criar o planejamento para retardar ou neutralizar essas ameaças”.
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“Se eu tenho barreiras físicas – muros altos, grades, cercas elétricas, iluminação, sistema tecnológico que entrega dados em tempo real, fator humano na portaria capacitado, tenho protocolo de segurança que é seguido à risca, e o morador cumprindo as regras o ambiente está seguro. Agora, se não tenho isso o criminoso vai agir. Ele estuda e planeja. Não escolhe qualquer um. Vai agir na vulnerabilidade”.
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Moradores são o ‘elo fraco’ da segurança
Rodrigo afirma que os moradores são, quase sempre, o elo mais fraco da segurança condominial, porque não respeitam regras. “Quando o fluxo de visitantes aumenta, o porteiro perde o controle de acesso e vai deixando. ‘Eu tô com fulano, pode liberar’, isso não pode. Só entra se tiver autorização. Tem que barrar. E muitas vezes a equipe de portaria embarreira e o morador vai reclamar para o síndico, o síndico pune o porteiro. Tá errado. Quem tem que ser penalizado é o morador”, diz o especialista. “O que está escrito no regimento interno precisa ser respeitado. Tudo o que for norma de segurança tem que estar escrito e compartilhado e ser executado”.
O Mais Goiás perguntou a opinião de Rodrigo sobre assuntos polêmicos do dia a dia de um prédio, como entrega de lanches e portaria remota. Veja o que ele disse:
Delivery de lanches

“Eu oriento todo mundo que o melhor é deixar o lanche e a mercadorias na portaria. O morador desce e recebe, nem é o porteiro. Ou pode-se criar um local separado na portaria para outro funcionário receber as entregas, mas isso vai depender de quanto o condomínio está disposto a pagar. Alguns prédios autorizam o motoboy a subir e ir até o apartamento, mas eu sou contra. Hoje existe também a opção do armário inteligente, que notifica o morador e ele desce para receber a mercadoria”.
Aluguel por temporada (Airbnb)
“O que tá escrito no regimento? Pode ou não? Se pode, os protocolos de segurança precisam valer para todos, não importa se veio de fora ou não. E outra coisa: quem está alugando é responsável pela segurança. Se o locador cometer um erro, o dono do imóvel vai ser penalizado. Então o dono do apartamento, ao alugar, tem que passar as regras de segurança para o inquilino e ir até o condomínio, apresentar a pessoa para o porteiro”.
Porteiros mal treinados
É preciso criar um curso relacionado à segurança daquele condomínio, que ensine o colaborador como ele tem que trabalhar. O portão tá aberto, vou fechar ou vou deixar? Vou tirar uma foto, vou relatar no livro, vou comunicar com o síndico… ‘ah, eu vi um carro suspeito parado aqui fora mais de meia hora’: eu vou lançar no livro de ocorrência? Eu vou avisar o síndico? Vou ligar para polícia? Esse curso demorar seis horas, dez, doze conforme a necessidade de cada ambiente. E conforme a capacitação, tem que documentar e certificar para saber quando cobrar do colaborador, para que ele não diga que fez algo porque não sabia”.

O que tem de tecnologia
O que existe de mais moderno hoje é o vídeo analítico com inteligência artificial. Câmera com inteligência embarcada, que consegue fazer a leitura, do ambiente, identificar movimentações suspeitas (como o cara que saca uma arma, um morador que passa mal e cai). E há a tecnologia tradicionalmente usada. Importante é fazer um balanço de 50% tecnologia, 50% colaboradores bem treinados.
Irresponsabilidade de moradores
O elo mais fraco da segurança condominial é o morador, porque sempre há aquele que não quer cumprir regras de segurança no controle de acesso – que precisam valer para todos. É fundamental compartilhar informações sobre segurança com os moradores, com vídeos informativos e panfletos. A segurança de um condomínio é coletiva, é cada um fazendo a sua parte. O síndico, o morador, o colaborador da portaria e das empresas terceirizadas. Ninguém pode entrar no condomínio sem autorização. O ditado é garantido: ‘cachorro só entra na igreja se a porta estiver aberta’.


