Javier Milei – Foto: Marco Iacobucci Epp / Shutterstock.com
O ministro das Relações Exteriores da Argentina, Gerardo Werthein, apresentou sua renúncia ao presidente Javier Milei nesta quarta-feira, 22 de outubro de 2025, em Buenos Aires. A decisão ocorre em um momento de instabilidade econômica agravada pela desvalorização contínua do peso argentino, que perdeu mais de 15% de seu valor nas últimas semanas. A renúncia será efetivada na segunda-feira, 27 de outubro, logo após as eleições legislativas nacionais marcadas para o domingo, 26 de outubro.
Milei, que assumiu o cargo em dezembro de 2023 com promessas de reformas liberais, enfrenta críticas internas e externas pela gestão da crise. Werthein, no posto há menos de um ano, deixa o governo após especulações sobre sua permanência, impulsionadas por fricções com assessores presidenciais. O presidente ainda não comentou publicamente a saída.
- Principais motivos da renúncia incluem:
- Críticas à gestão da reunião com Donald Trump em 14 de outubro.
- Tensões com o consultor Santiago Caputo, influente no círculo de Milei.
- Pressões econômicas, com inflação anual acima de 200% e queda no PIB de 0,1% no segundo trimestre.
Tensões na reunião com Trump
A recente viagem de Milei aos Estados Unidos gerou controvérsias que aceleraram a saída de Werthein. Durante o encontro na Casa Branca, Trump condicionou um pacote de US$ 20 bilhões em ajuda financeira à vitória do partido de Milei nas eleições de domingo. Essa declaração provocou uma queda imediata nos mercados argentinos, com o dólar subindo 5% em um dia.
Fontes governamentais indicam que Werthein foi responsabilizado por falhas na comunicação com Washington. O chanceler esperava uma defesa pública de Milei, que não veio, o que aprofundou as divergências internas. A reunião, resumida a um almoço e saudações breves, não resultou em avanços concretos para estabilizar a moeda local.
Reestruturação no gabinete
Milei anunciou na terça-feira que planeja reorganizar o gabinete após o pleito legislativo. A renúncia de Werthein é o primeiro movimento concreto nessa direção, com especulações sobre a entrada de figuras como o secretário Nahuel Sotelo ou aliados do PRO, partido de Mauricio Macri.
Outros nomes sob risco incluem a ministra da Segurança, Patricia Bullrich, e o ministro da Defesa, Luis Petri, que disputam vagas no Parlamento. Esses ajustes visam alinhar o governo às demandas de reformas de segunda geração, como cortes em subsídios e abertura comercial.
O processo de transição ocorre em meio a negociações com o FMI, que aprovou uma liberação de US$ 4,7 bilhões em setembro, mas exige mais austeridade fiscal. Analistas preveem que a reestruturação possa incluir fusão de pastas para reduzir custos.
A medida reflete a estratégia de Milei de concentrar poder em assessores próximos, como sua irmã Karina Milei, secretária geral da Presidência. Antes de sair, Werthein assinou uma resolução com 83 traslados de diplomatas para embaixadas em China, EUA e Brasil, custando cerca de US$ 2 milhões ao erário.
Contexto da crise econômica
A desvalorização do peso reflete problemas crônicos na economia argentina. Desde janeiro de 2025, o Banco Central interveio 12 vezes no mercado cambial, vendendo reservas para conter a alta do dólar blue, que chegou a 1.200 pesos por unidade.
O governo cortou gastos públicos em 30% no primeiro semestre, mas o consumo caiu 1,1%, afetando setores como varejo e construção. A inflação mensal de setembro ficou em 4,2%, acumulada em 209% ao ano, segundo o INDEC.
Esses indicadores pressionam o orçamento familiar, com o salário mínimo em torno de 250 mil pesos, insuficiente para cobrir despesas básicas. O desemprego subiu para 8,5%, o maior em dois anos.
Possíveis substitutos e eleições
Nahuel Sotelo, atual secretário de Culto, surge como favorito para o cargo. Ele mantém canais abertos com instituições religiosas e tem experiência em diplomacia. Outra opção é um embaixador de carreira, para sinalizar continuidade.
As eleições de domingo renovam metade da Câmara e um terço do Senado. La Libertad Avanza, partido de Milei, busca 15 cadeiras na Câmara para avançar pautas como privatizações.
Votantes em Buenos Aires expressam preocupação com a estabilidade. Uma pesquisa recente do Poliarquia mostra que 55% dos eleitores priorizam economia nas escolhas.
O pleito define o apoio ao ajuste fiscal, essencial para negociações internacionais. Observadores internacionais monitoram o processo, que ocorre em um clima de polarização.
Acordos internacionais em risco
A renúncia pode atrasar negociações com o Mercosul, onde a Argentina busca flexibilizar regras de comércio. Em julho, Milei participou de cúpula em Buenos Aires, mas avanços foram limitados por divergências com Brasil e Uruguai.
Com os EUA, o swap de US$ 20 bilhões depende do resultado eleitoral, conforme Trump. O Tesouro americano formalizou o acordo em outubro, mas vinculou liberações futuras ao desempenho de Milei.
Na China, principal parceiro comercial com exportações de soja em US$ 8 bilhões anuais, relações esfriaram após críticas de Milei. Werthein liderou esforços para equilibrar laços, incluindo visitas a Pequim.


