Camisinha ajuda pesquisadoras em descoberta com cigarras na Amazônia

Redação
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Camisinha ajuda pesquisadoras em descoberta com cigarras na Amazônia

Um experimento realizado por pesquisadoras brasileiras transformou preservativos de látex em ferramenta científica. O estudo tinha o intuito de comprovar as funções biológicas das torres de argila construídas pelas ninfas da cigarra amazônica Guyalna chlorogena, conhecida como cigarra-arquiteta.

A pesquisa buscou comprovar as funções biológicas dessas estruturas, erguidas pelos insetos durante um dos momentos mais vulneráveis do ciclo de vida: a última etapa da metamorfose.

O método inusitado foi adotado pela equipe de ecólogas formada pelas estudantes Marina Méga, Izadora Nardi, Sara Feitosa e Maria Luiza Busato, durante o curso de campo da Formação em Ecologia Quantitativa do Instituto Serrapilheira, para vedar completamente as torres e interromper a troca de gases com o ambiente. A proposta era analisar o comportamento das ninfas com diminuição da entrada de oxigênio nas estruturas.

A pesquisa comprovou que as torres funcionam como uma espécie de extensão do próprio corpo da cigarra-arquiteta, ajudando a reduzir o risco de ataque de formigas e a manter a troca de gases em seu desenvolvimento. Até então, as hipóteses sobre o papel dessas estruturas eram baseadas, principalmente, em observações, sem comprovação experimental.

O artigo com os achados científicos inéditos foi publicado na revista Biotropica, em fevereiro deste ano.

Experimento com a camisinha

Para testar o papel das torres na respiração das ninfas, as pesquisadoras decidiram bloquear completamente a troca de gases entre o interior da estrutura e o ambiente externo. A solução encontrada foi simples e inusitada: cobrir as torres com preservativos de látex.

No experimento, as camisinhas foram colocadas sobre as estruturas, do topo até a base, e fixadas com filme plástico, criando uma vedação completa. Cada torre permaneceu selada por cerca de 18 horas.

O objetivo era simular uma situação de estresse respiratório. Se as torres funcionassem como um sistema de ventilação ou controle de gases, impedir a circulação de ar deveria alterar a resposta das ninfas.

Após o período de vedação, as pesquisadoras quebraram manualmente as torres para observar como o inseto reagiria e quanto conseguiriam reconstruir das estruturas durante a noite.

Os resultados indicaram uma resposta clara ao bloqueio da ventilação. As ninfas que estavam nas estruturas maiores aceleraram o crescimento após a vedação, enquanto aquelas em torres menores reduziram a taxa de reconstrução.

Segundo as autoras, o experimento sugere que as torres ajudam a regular as condições internas enfrentadas pela cigarra durante a fase subterrânea, funcionando como um “fenótipo estendido”, quando características de um organismo se manifestam também nas estruturas que ele constrói no ambiente.

Proteção contra predadores

Além da troca de gases, a equipe também investigou outra hipótese levantada por estudos anteriores: a de que as torres poderiam proteger as ninfas contra predadores.

Para testar a ideia, as pesquisadoras colocaram iscas feitas de água, farinha e sardinha no topo das torres e também diretamente no solo. A presença de formigas, principais predadoras das cigarras nessa fase da vida, foi registrada algumas horas depois.

O resultado foi expressivo: a probabilidade de encontrar formigas nas iscas colocadas no chão foi cerca de oito vezes maior do que nas instaladas no topo das torres.

De acordo com o artigo, o número indica que a elevação da estrutura reduz o risco de ataque, especialmente durante a metamorfose, quando a ninfa emerge do solo e permanece exposta por algumas horas enquanto se transforma em adulta.

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