megaoperação nos complexos da Penha e Alemão – Foto: Reprodução/Record
A megaoperação Contenção, deflagrada pelas polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro contra o Comando Vermelho, resultou em 132 mortes nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte da capital. A ação ocorreu na terça-feira (28 de outubro de 2025) e envolveu 2.500 agentes em cumprimento de 100 mandados de prisão. Segundo a Defensoria Pública do estado, o número inclui 128 civis e quatro policiais, superando balanços oficiais iniciais de 119 óbitos divulgados pelo governo estadual.
Moradores do Complexo da Penha localizaram mais de 60 corpos em áreas de mata durante a madrugada de quarta-feira (29) e os transportaram para a Praça São Lucas, na Estrada José Rucas. Esses restos mortais não constavam nos registros iniciais das autoridades, o que elevou o total confirmado pela Defensoria. Equipes do Instituto Médico-Legal (IML) atuam na identificação, enquanto o Ministério Público envia peritos para análises independentes.
O governador Cláudio Castro classificou a operação como sucesso em coletiva de imprensa, destacando apreensões de 93 fuzis e 113 prisões, incluindo 33 foragidos de outros estados. A iniciativa visava conter a expansão territorial do Comando Vermelho, com investigações de mais de um ano identificando 94 alvos nos complexos.
Ação policial mobiliza recursos e enfrenta resistência armada
Agentes avançaram pela Serra da Misericórdia com táticas de cerco, utilizando drones e helicópteros para monitorar rotas de fuga. Criminosos responderam com barricadas incendiadas em vias como a Linha Amarela e a Avenida Brasil, além de ataques com explosivos lançados por drones.
O confronto durou mais de 12 horas e interrompeu o tráfego na cidade, elevando o estágio operacional do Centro de Operações Rio para nível 2. Equipes do Batalhão de Operações Especiais posicionaram-se em pontos estratégicos, resultando em nove feridos entre civis e agentes.
- 93 fuzis e 21 pistolas recolhidos, aproximando-se do recorde anual de apreensões.
- 12 motos e grande quantidade de munições confiscadas durante incursões.
- Túneles e passagens camufladas descobertos, usados para escapes coordenados.
Mortes de policiais marcam histórico da operação
Dois agentes civis, Marcus Vinícius Cardoso (conhecido como Máskara, 51 anos) e Rodrigo Velloso Cabral (34 anos), foram atingidos na entrada do Complexo da Penha. Os sargentos militares Cleiton Serafim (42 anos) e Heber Fonseca (39 anos) morreram no avanço pelo Complexo do Alemão.
Essas baixas ocorreram em meio a reações armadas de traficantes, que montaram barreiras flamejantes e usaram armamento pesado. Familiares dos policiais recebem assistência da corporação, enquanto investigações internas apuram as circunstâncias dos tiroteios.
O saldo de feridos inclui três moradores e seis agentes de segurança, com atendimentos concentrados em hospitais próximos aos complexos.
Recolhimento de corpos por moradores expõe discrepâncias nos balanços
Na Praça São Lucas, residentes enfileiraram os corpos cobertos por lençóis para facilitar o reconhecimento por parentes, muitos dos quais buscavam notícias de desaparecidos desde o início da operação. Imagens aéreas registraram cerca de 70 restos mortais no local, incluindo alguns com marcas de perfurações e tiros nas pernas, localizados na mata entre os complexos.
A Defensoria Pública destacou a presença de defensores no IML e nas comunidades desde a madrugada, coletando depoimentos de testemunhas. O órgão reforça assistência jurídica gratuita a familiares das vítimas e a pessoas detidas durante a ação.
O governo estadual informou que perícias determinarão se esses achados relacionam-se diretamente aos confrontos, podendo ajustar os números oficiais.
Discrepâncias entre números oficiais e relatos de campo
O balanço inicial do governo apontava 64 mortes na terça-feira, com atualizações para 119 até o início da tarde de quarta. A Defensoria, porém, elevou para 132 com base em relatos locais e registros no IML, configurando a operação como a mais letal desde 2007, segundo dados do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF.
Essa divergência reflete desafios na contagem em áreas de difícil acesso, como matas densas usadas para emboscadas. O procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, mantém monitoramento contínuo, com técnicos periciais atuando de forma independente.
Oito ações letais semelhantes ocorreram na gestão atual, somando mais de 100 civis mortos em operações anteriores, como as de Jacarezinho (2021) e Penha (2022).
Assistência humanitária e monitoramento institucional
A Ouvidoria e o Núcleo de Direitos Humanos da Defensoria atuam em múltiplas frentes, prestando suporte a afetados pela operação nos complexos e no IML. Equipes acompanham buscas por desaparecidos e garantem acesso a serviços essenciais interrompidos durante os confrontos, como escolas e comércios locais.
O Ministério Público do Rio de Janeiro enviou delegação para perícias autônomas, analisando evidências de violência em conformidade com normas legais. O plantão de monitoramento repassa dados à 5ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal Especializada.
Cerca de 30 organizações de direitos humanos emitiram nota conjunta criticando a letalidade, enquanto o Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos expressou preocupação com relatos de execuções sumárias.
Reações políticas e desdobramentos federais
O presidente Lula convocou reunião de emergência no Palácio da Alvorada com ministros para discutir a operação, sem registro prévio de solicitação de apoio federal pelo governador Castro. O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, afirmou não ter recebido pedidos de intervenção durante a ação.
Na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania iniciou acompanhamento nos complexos, em parceria com entidades locais. A Federação das Associações de Favelas (Fafael) divulgou carta de repúdio, classificando o evento como violência estrutural.
O governo estadual planeja transferir 10 vagas para presídios federais, visando isolar lideranças capturadas do Comando Vermelho.
Contexto de letalidade em ações policiais no estado
De 2007 a outubro de 2025, o estado registrou 707 operações com mortes na região metropolitana, totalizando 2.905 civis e 31 policiais vítimas, conforme o Geni/UFF. A atual ação supera em mais de quatro vezes o massacre do Jacarezinho, com 28 óbitos em 2021, e estabelece novo recorde de confrontos armados.
Fatores como uso de armamento pesado pelo crime organizado e táticas de cerco em áreas urbanas densas contribuem para os altos índices. O Comando Vermelho, originário do sistema carcerário nos anos 1970, controla territórios no Rio e expandiu para a Amazônia, focando em tráfico de drogas e armas.
Especialistas apontam que investigações prévias, como a de um ano para esta operação, contrastam com execuções em campo, demandando reformas em protocolos de uso de força.


