O desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixou um saldo de quase uma dezena de contestações na Justiça e desgaste com o evangélicos, resultando na primeira crise que o governo precisa lidar em ano eleitoral.
O tour de Carnaval planejado pelo petista começou com passagens pela folia em Recife (PE) e Salvador (BA), que renderam cortes virais nas redes sociais. Em um deles, Lula aparece pulando no camarote ao som da banda BaianaSystem. A princípio, a ida à Sapucaí também parecia tranquila. O presidente desceu à avenida para cumprimentar integrantes de todas as escolas de samba da noite, foi aplaudido por parte da plateia e foram poucos os registros de vaia — o que foi comemorado por aliados.
A desistência da primeira-dama Janja Lula da Silva em desfilar no carro alegórico reservado aos amigos e familiares buscou minimizar o ruído em torno do desfile. No entanto, os esforços do governo para remediar a situação não foram suficientes para conter os danos. Um dia após a apresentação, figuras da oposição ameaçaram judicializar a homenagem — movimento que já vinha sendo ensaiado antes mesmo do desfile.
O Metrópoles levantou ao menos nove ações protocoladas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e na Justiça Federal que contestam o tributo ao presidente desde o início de fevereiro. As principais alegações envolvem uma suposta prática de propaganda eleitoral antecipada e o uso de recursos públicos para financiar o desfile.
Na véspera do Carnaval a Corte Eleitoral já havia negado dois pedidos de liminar para impedir a realização da apresentação da Acadêmicos de Niterói. Os ministros, no entanto, ressaltaram que o tema poderia voltar a ser analisado após o evento.
Desde o último domingo (15/2), o TSE recebeu pedidos do Partido Liberal e do Partido Missão envolvendo o desfile. A sigla do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) solicitou a abertura de uma apuração sobre a homenagem. O objetivo do PL é levantar subsídios para uma possível ação de inelegibilidade contra o petista.
O Missão, vinculado ao Movimento Brasil Livre (MBL), por sua vez, quer impedir que Lula utilize imagens na Sapucaí durante a campanha de reeleição. A representação é assinada pelo presidente da legenda e pré-candidato ao Planalto, Renan Santos.
O desfile da escola de samba de Niterói pode ser alvo de mais contestações nos próximos dias, já que mais de uma dezena de parlamentares da oposição ameaçaram acionar a Justiça após o desfile.
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Lula, Raquel Lyra e João Campos no Galo da Madrugada, em Recife
Ricardo Stuckert/Presidência da República

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Lula foi homenageado pela Acadêmicos de Niterói
Instagram/Reprodução

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Lula junto à escola de samba Acadêmicos de Niterói
Reprodução/Instagram @LulaOficial


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Lula junto à escola de samba Imperatriz
Reprodução/Instagram @LulaOficial

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Presidente Lula no Carnaval do Rio de Janeiro
Ricardo Stuckert/PR
Carnaval na Sapucaí
- No último domingo, o presidente Lula foi ao Rio de Janeiro para acompanhar a primeira noite de desfiles do Grupo Especial, na Marquês de Sapucaí.
- Na ocasião, ele assistiu à apresentação da Acadêmicos de Niterói, que o homenageou com o samba-enredo “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil”.
- O desfile teve referências à infância e vida política do petista. Programas sociais criados durante mandatos anteriores e pautas da gestão atual, como o fim da escala 6×1, foram tema da apresentação.
- A escola também retratou adversários políticos de Lula, como o ex-presidente Jair Bolsonaro, que foi representado como o palhaço Bozo, preso com uma tornozeleira eletrônica.
- Ao final, a Acadêmicos de Niterói acabou rebaixada.
Desgaste com evangélicos
O estrago não ficou restrito à esfera jurídica, e resvalou também no campo político. O principal motivo do desgaste foi o trecho do desfile que retratou famílias conservadoras dentro de latas de conserva.
A lata estampava uma ilustração de uma família feliz, mas por dentro estava podre. Mesmo sem fazer referência a um grupo específico, a oposição a Lula relacionou a alegoria com o eleitorado evangélico.
Com isso, a alegoria repercutiu mal entre figuras religiosas contrárias e até próximas ao governo. A Frente Parlamentar Evangélica publicou uma nota de repúdio na qual classificou a apresentação da Acadêmicos de Niterói como “desrespeitosa e afrontosa”.
“É inadmissível que o direito à manifestação cultural seja distorcido para promover o escárnio contra a fé cristã e o deboche aberto aos valores conservadores que sustentam nossa sociedade”, diz a nota.
O deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ), que em diferentes ocasiões esteve no Palácio do Planalto em agendas do governo Lula com evangélicos, também criticou o desfile.
“Quando um partido decide dialogar apenas com a própria bolha, ele começa a desprezar sinais claros da sociedade. Ridicularizar valores caros a conservadores, famílias e parte significativa do eleitorado, inclusive gente que já votou no próprio governo, não é detalhe cultural. É cálculo político”, ressaltou.
Uma ala do governo tenta apaziguar as críticas. Auxiliares defendem a tese que o presidente não teve interferência na construção do desfile. Na última quinta-feira (19/2), a ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT-PR), publicou um vídeo rebatendo as acusações da oposição.
A titular da articulação política do governo alega que as críticas são fruto de “muito oportunismo e hipocrisia” por parte da extrema direita. “Esse tipo de abordagem mentirosa é a mesma que usaram na campanha eleitoral de 2022. Praticamente as mesmas pessoas, os bolsonaristas, diziam que Lula perseguiria igrejas e pastores, criaria banheiros unissex nas escolas. É gente dissimulada e mentirosa”, disse a ministra.

