Vítima de tráfico humano: mineira de 35 anos enfrenta julgamento no Camboja por drogas plantadas

Redação
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Vítima de tráfico humano: mineira de 35 anos enfrenta julgamento no Camboja por drogas plantadas
Daniela Marys de Oliveira

Daniela Marys de Oliveira – Foto: Arquivo Pessoal

Daniela Marys de Oliveira, arquiteta de 35 anos natural de Minas Gerais, está detida há sete meses na Prisão Provincial de Banteay Meanchey, no norte do Camboja, após ser atraída por uma oferta falsa de emprego em telemarketing. A brasileira viajou para o país do Sudeste Asiático em janeiro deste ano, mas descobriu que o trabalho envolvia a aplicação de golpes pela internet, segundo relatos da família. Ao se recusar a participar, teve o passaporte retido e foi acusada de posse de drogas, com julgamento marcado para 23 de outubro. O Ministério das Relações Exteriores confirma assistência consular por meio da embaixada na Tailândia.

A prisão onde Daniela está confinada opera com superlotação severa, abrigando cerca de 90 mulheres em uma cela projetada para menos detentas. Relatos indicam falta de saneamento básico e atrasos em atendimentos médicos, o que agravou a saúde da arquiteta. A família relata que ela adoeceu e precisou de exames externos, mas esperou quase 20 dias para ser transferida.

Trajetória profissional de Daniela antes da viagem

Daniela atuava como arquiteta em João Pessoa, na Paraíba, onde residia com a família após se mudar de Minas Gerais. Sua carreira incluía projetos residenciais e comerciais na região Nordeste, com foco em designs sustentáveis para construções urbanas. Colegas descrevem-na como profissional dedicada, com experiência acumulada em escritórios locais desde a formatura.

A mineira optou pela viagem ao Camboja em busca de oportunidades internacionais, atraída por promessas de salário atrativo e contrato temporário de seis a 12 meses. Antes de partir, manteve contato frequente com parentes, compartilhando planos de retorno rápido ao Brasil para retomar a rotina profissional.

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Daniela Marys de Oliveira – Foto: Arquivo Pessoal

Detalhes da oferta de emprego que levou à detenção

A proposta surgiu por meio de contatos online, com promessas de vagas em call centers internacionais baseados em Phnom Penh. O recrutador enfatizou benefícios como moradia inclusa e suporte para expatriados, mas o local real ficava em um complexo isolado perto da fronteira com a Tailândia.

Ao chegar, Daniela percebeu irregularidades: o passaporte foi confiscado imediatamente, e o treinamento inicial revelou obrigações criminosas. Ela tentou negociar a saída, mas exigiram pagamento de multa equivalente a milhares de dólares.

  • Contato inicial via redes sociais com suposto empregador estrangeiro.
  • Viagem em janeiro, com chegada ao complexo afastado da capital.
  • Descoberta do esquema de fraudes em março, durante sessões obrigatórias.
  • Tentativa de recusa resultou em acusação fabricada de porte de substâncias ilícitas.

Condições na prisão cambojana e impactos na saúde

A Prisão Provincial de Banteay Meanchey enfrenta capacidade excedida em até 200%, conforme dados de organizações de direitos humanos locais. Detentas dividem espaços mínimos sem ventilação adequada, o que eleva riscos de infecções respiratórias e problemas dermatológicos. Em 2013, uma inundação forçou a evacuação de centenas de presos devido ao transbordamento do rio Mekong.

Daniela relatou à família, por meio de chamadas esporádicas, dificuldades para acessar água potável e refeições nutritivas. O médico da unidade diagnosticou complicações gastrointestinais, exigindo intervenção externa.

A superlotação agrava o estresse crônico entre as presas, com relatos de aumento em casos de hipertensão e ansiedade. Autoridades cambojanas registraram a morte de um detento de 22 anos em março, sob investigação por negligência médica.

Esforços da família para apoio consular

Myriam Marys, mãe de Daniela e residente em João Pessoa, coordena a comunicação com autoridades brasileiras desde a detenção. A irmã, Lorena, enviou documentos à Polícia Federal para investigar o recrutamento como possível tráfico humano.

O Itamaraty monitora o processo judicial e facilita visitas consulares limitadas. A família arrecada fundos para cobrir custos de defesa e eventuais multas impostas pelo tribunal cambojano.

Rede de tráfico humano no Sudeste Asiático

Esquemas semelhantes atraíram dezenas de brasileiros para o Camboja nos últimos anos, com promessas de empregos remotos. Vítimas relatam retenção de documentos e coação para fraudes cibernéticas, gerando prejuízos globais estimados em milhões de dólares anualmente.

Agências internacionais identificam o país como hub para operações de scam online, envolvendo trabalhadores forçados de diversas nacionalidades. Casos recentes envolvem prisões em massa de suspeitos, mas poucas repatriacões de vítimas.

Daniela compartilhou, em áudio à família, alertas sobre o isolamento do complexo, sem acesso a estradas ou serviços básicos. Investigações apontam ligações com grupos transnacionais que exploram vulnerabilidades econômicas de profissionais qualificados.

Julgamento iminente e próximos passos

O tribunal de Sisophon agenda a audiência para 23 de outubro, onde Daniela enfrentará provas sobre a acusação de tráfico. Advogados locais, contratados via consulado, preparam defesa baseada em depoimentos de testemunhas sobre o esquema de golpes.

A família pressiona por aceleração do processo, citando violações de direitos durante a detenção. Atualizações dependem de relatórios oficiais do governo cambojano.

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