Nomeação de Marco Rubio como Secretário de Estado gera tensão diplomática com Brasil e Trump

Marco Rubio

Marco Rubio – Foto: LeisureCowboy/istock

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, designou Marco Rubio como Secretário de Estado em novembro de 2024, cargo que ele assumiu em janeiro de 2025 após aprovação unânime no Senado americano. A escolha, confirmada por voto de 99 a favor, posiciona Rubio como o latino-americano de maior destaque na história do governo norte-americano. Filho de imigrantes cubanos, Rubio reflete a linha dura de Trump em relações internacionais, especialmente com a América Latina.

A nomeação ocorreu em meio a tensões crescentes entre EUA e Brasil, agravadas por tarifas de 50% sobre produtos brasileiros anunciadas em resposta a decisões judiciais no país. Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversaram por videoconferência em 6 de outubro de 2025, em diálogo de 30 minutos focado em economia e comércio. Durante a ligação, Trump escalou Rubio para liderar as negociações subsequentes, o que gerou reações mistas no Planalto.

Rubio, senador pela Flórida até 2025, tem histórico de críticas ao governo brasileiro. Ele defendeu sanções contra autoridades do Supremo Tribunal Federal, incluindo Alexandre de Moraes, sob a Lei Magnitsky, alegando violações de direitos humanos. Essa postura ideológica, alinhada à extrema-direita, contrasta com o tom amistoso adotado por Trump na conversa com Lula.

O Brasil, por sua vez, nomeou o vice-presidente Geraldo Alckmin, o chanceler Mauro Vieira e o ministro da Fazenda Fernando Haddad para as tratativas. Os líderes combinaram um encontro presencial em breve, possivelmente na Cúpula da Asean, na Malásia, ainda em outubro.

Trajetória política de Rubio no Senado

Marco Rubio ingressou no Senado em 2011, impulsionado pelo Tea Party, movimento conservador republicano. Ele presidiu o Subcomitê de Relações Exteriores para o Hemisfério Ocidental, onde se destacou por posições agressivas contra governos de esquerda na região.

Durante o primeiro mandato de Trump, Rubio atuou como “secretário de Estado adjunto para a América Latina”, influenciando políticas contra Cuba, Venezuela e Nicarágua. Em 2016, disputou as primárias republicanas contra Trump, trocando críticas públicas, mas depois se alinhou ao ex-rival.

Sua confirmação como Secretário de Estado em 2025 marcou uma virada, com foco em imigração rígida e deportações em massa. Rubio fala espanhol fluente e usa sua origem cubana para defender valores anticomunistas.

Críticas de Rubio ao Brasil e sanções aplicadas

Rubio publicou cinco postagens sobre o Brasil desde julho de 2025, criticando o que chamou de “perseguições políticas” contra Jair Bolsonaro. Em setembro, após a condenação de Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe, ele prometeu resposta americana.

O governo Trump revogou vistos de Moraes e familiares, além de autoridades ligadas ao programa Mais Médicos, associadas a Cuba. Rubio justificou as medidas como defesa da liberdade de expressão e do Estado de Direito.

Essas ações elevaram a tensão bilateral, com o Itamaraty rebatendo que ameaças não afetam a soberania brasileira. Analistas veem as sanções como retaliação ideológica, misturando comércio e política interna.

  • Revogação de vistos para Moraes e esposa em julho de 2025.
  • Suspensão de vistos para Mozart Julio Tabosa Sales e Alberto Kleiman, ligados ao Mais Médicos.
  • Ameaça de novas medidas após condenação de Bolsonaro em setembro.
  • Aplicação da Lei Magnitsky contra autoridades chinesas e cubanas, estendida ao contexto brasileiro.
Donald Trump
Donald Trump – Foto: Instagram

Apoio de Rubio à extrema-direita brasileira

Desde 2018, Rubio cultivou laços com a família Bolsonaro. Eduardo Bolsonaro, ex-deputado, reuniu-se com ele em Washington para discutir sanções. O blogueiro Paulo Figueiredo, exilado nos EUA, também faz lobby junto ao secretário.

Rubio elogiou o governo Bolsonaro em artigo na CNN em 2019, destacando alinhamento ideológico. Após a eleição de Lula, ele passou a atacar o Planalto por suposta proximidade com regimes autoritários.

Esses contatos fortalecem a influência da extrema-direita brasileira em Washington. Líderes do PL, como Sóstenes Cavalcante, veem a escolha de Rubio como “jogada de craque” de Trump, por seu perfil ideológico.

A proximidade preocupa o setor privado brasileiro, que teme impasse nas negociações comerciais. Ex-embaixador Rubens Ricupero, porém, minimiza, afirmando que o diálogo de Estado prevalece sobre ideologias.

Máquina diplomática respalda atuação de Rubio

Embora não seja diplomata de carreira, Rubio conta com o Departamento de Estado, que gerencia relações globais. O vice-secretário Christopher Landau e o subsecretário Darren Beattie apoiam sua linha dura contra o Brasil.

Em julho de 2025, Rubio reuniu-se com Vieira em Washington, discutindo tarifas e sanções. A conversa durou horas e sinalizou pouca flexibilidade americana.

O comércio bilateral, com superávit de US$ 20 bilhões para os EUA em 2024, é ponto central. Brasil exporta manufaturados, enquanto EUA investem no país. Haddad planeja nova reunião com o secretário do Tesouro Scott Bessent no G20.

Rubio deve seguir orientações de Trump, que prioriza pragmatismo econômico. Analistas como Dawisson Belém Lopes, da UFMG, notam que o aceno de Trump a Lula na ONU desmontou narrativas de monopólio da direita sobre Washington.

Expectativas para negociações bilaterais

O Planalto avalia o impacto da designação de Rubio, vista como sinal de endurecimento. Celso Amorim, assessor de Lula, considera o secretário “altamente qualificado”, mas alerta para temas sensíveis como Venezuela e China.

Lula argumentou na ligação que o Brasil gera superávit comercial para os EUA, pedindo retirada das tarifas de 40% a 50%. Trump respondeu com otimismo, mas delegou detalhes a Rubio.

Setor privado brasileiro, representado por entidades como a CNI, expressa preocupação com o tarifaço, que afeta exportações de aço e aviões. Negociações devem ocorrer nas próximas semanas, com risco de impasse ideológico.

Posicionamento de analistas sobre o diálogo

Ex-embaixador Rubens Barbosa destaca que Rubio é o responsável natural pela política externa, mas sua ideologia complica o processo. “É o mais ideológico de todos”, disse ele em entrevista recente.

Dawisson Belém Lopes observa que a conversa Trump-Lula reposicionou bolsonaristas, que esperavam exclusividade no acesso a Washington. A designação de Rubio pode forçar concessões em pautas não econômicas.

Para o governo brasileiro, o foco permanece no pragmatismo. Alckmin enfatizou a “boa química” na ligação presidencial, prevendo desdobramentos positivos apesar das diferenças.

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