Arqueólogos e cientistas forenses finalmente revelaram a identidade da arma responsável pelos enigmáticos buracos quadrados encontrados nos crânios de soldados medievais, vítimas da Batalha de Visby em 1361. Uma análise detalhada das fraturas ósseas, combinada com tecnologia avançada de captura de movimento e réplicas de armas, demonstrou que os combatentes medievais utilizavam um porrete com pontas em ataques coordenados para incapacitar e dar o golpe final nos oponentes. As conclusões foram apresentadas em 5 de agosto durante a 25ª reunião da Associação Europeia de Paleopatologia, realizada em Berlim.
Patrick Randolph-Quinney, antropólogo biológico da Universidade de Uppsala, na Suécia, explicou a complexidade do confronto histórico. “Precisamos entender a complexidade do combate medieval; não é um processo simples”, afirmou Randolph-Quinney, cujas descobertas ainda aguardam publicação em uma revista científica revisada por pares. A pesquisa promete mudar a compreensão sobre as táticas militares daquela época.
A brutal Batalha de Visby e os vestígios da violência
Os esqueletos estudados foram exumados de uma vala comum associada à Batalha de Visby, que ocorreu em julho de 1361 na ilha sueca de Gotland. O conflito se deu quando o rei dinamarquês Valdemar Atterdag, ou Valdemar IV, invadiu a região com o objetivo de saquear Visby. A cidade era um importante centro da Liga Hanseática, prosperando através do controle das rotas comerciais entre a Europa Ocidental e o Mar Báltico.
Os defensores de Gotland, embora em número semelhante ao exército de Atterdag, sofreram uma derrota avassaladora, resultando em 1.800 baixas gotlandesas contra 300 dinamarquesas. Os soldados mortos foram sepultados com suas armaduras logo após o combate em uma vala comum próxima ao campo de batalha, escavada pela primeira vez no início do século XX. A descoberta desses corpos com ferimentos peculiares sempre intrigou os historiadores.
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A narrativa histórica desafiada pelas evidências
A crença convencional era que os defensores de Visby eram predominantemente jovens e idosos, mal treinados e equipados de forma precária, tornando-os presas fáceis para o exército dinamarquês. Essa percepção é agora questionada pelos novos estudos. A equipe de Randolph-Quinney montou um projeto multidisciplinar, envolvendo especialistas em arqueologia de conflitos, DNA antigo, história medieval e armamentos da época.
Eles se concentraram em desvendar os misteriosos orifícios quadrados observados em diversos crânios. Anteriormente, os arqueólogos do século XX especulavam que as lesões seriam causadas por pontas de lança ou flechas. No entanto, Ronja Bågling, estudante de pós-graduação em arqueologia na Universidade de Uppsala, levantou a hipótese de um porrete com pregos, o que motivou a equipe a testar essa teoria.
Experimento com armas medievais e captura de movimento
Para testar as hipóteses, os pesquisadores construíram um modelo de corpo humano utilizando ossos de vaca, revestidos com uma espessa camada de gelatina balística que simula o tecido muscular. Armaduras medievais replicadas completaram o manequim. Em seguida, o especialista em reconstituição histórica medieval, Ray Whitcher, foi vestido com um traje de captura de movimento 4D, que registra movimentos de diversos ângulos.
Whitcher recebeu diversas réplicas de armas, incluindo bestas, machados e um porrete com espinhos, e foi instruído a atacar os modelos com intensidade, entrando em “modo berserker total”, como descreveu Randolph-Quinney. Os resultados foram surpreendentes. Bestas e machados não produziram danos semelhantes aos encontrados nos esqueletos de Visby.
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O porrete com espinhos: a arma dos golpes fatais
A pesquisa confirmou que o porrete com espinhos era a arma capaz de causar os danos imensos e precisos, correspondendo exatamente aos ferimentos observados nos crânios. Além disso, a análise detalhada de múltiplos traumas em vários esqueletos permitiu aos pesquisadores determinar a sequência dos golpes e as armas utilizadas. Um crânio, por exemplo, revelou um golpe de machado interrompido pelo impacto de um porrete com espinhos.
Isso sugere ataques coordenados, envolvendo mais de uma pessoa. Randolph-Quinney descreveu o cenário: “Você tem equipes de pessoas trabalhando juntas; alguém ataca pela frente, dois caras por trás e pela lateral, e com um machado grande, eles decepam as pernas”. Ele acrescentou que, após a desabilitação, um “indivíduo dedicado aparece e dá o golpe de misericórdia”, provavelmente com o porrete.
Um novo olhar sobre as habilidades dos combatentes medievais
As conclusões preliminares deste projeto indicam que as milícias medievais, como as de Visby, não eram compostas por camponeses inexperientes ou mal treinados. Pelo contrário, eram grupos de combatentes com considerável familiaridade em técnicas avançadas de luta em grupo. Jo Buckberry, antropóloga biológica da Universidade de Bradford, no Reino Unido, e colaboradora do projeto, afirmou que, embora não fizessem parte de um exército permanente, isso não significava falta de treinamento.
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Randolph-Quinney reforçou que “muitas das suposições históricas sobre o tipo de arma, o estilo de luta e a forma de infligir ferimentos fatais estão incorretas”. O projeto, ainda em andamento, destaca a importância da colaboração entre diversas áreas do conhecimento para aprofundar a compreensão do combate medieval, provando que é possível combinar ciência séria com um trabalho cativante.

