O Ministério Público de São Paulo deu início a um procedimento investigatório criminal, na data de 13 de agosto de 2026, para verificar possíveis delitos na parceria entre o Corinthians e a empresa Incentiva Serviços Combinados Tecnologia e Marketing, ligada ao programa Fiel da Sorte.
O Corinthians efetuou pagamentos que ultrapassam R$ 6,9 milhões à Incentiva no período de agosto de 2023 a abril de 2026. Contudo, o próprio clube confessou ao Ministério Público que não possuía supervisão sobre as atividades executadas pela companhia.
O Corinthians declarou que a Incentiva jamais forneceu os relatórios e as prestações de contas essenciais para o cálculo das mensalidades.
O promotor Cássio Conserino, encarregado da investigação, destacou que, apesar da ausência de fiscalização, o clube continuou a realizar os pagamentos mensais. A meta da apuração é confirmar se “houve devolução de valores a dirigentes ou colaboradores do Corinthians e consequentemente desvio de dinheiro da entidade esportiva”.
No início da investigação, o representante do Ministério Público mencionou a apuração de possíveis crimes como estelionato, furto, apropriação indébita, delitos tributários, falsidade ideológica e associação criminosa, entre outros.

Como o programa Fiel da Sorte foi criado e desenvolvido
Em 28 de junho de 2023, o Corinthians anunciou com grande entusiasmo o lançamento do Fiel da Sorte, um programa que prometia sorteios semanais de prêmios e experiências exclusivas para os integrantes do Fiel Torcedor. O programa incluía a “rabiscadinha”, um bilhete digital de raspadinha, concedendo 12 unidades gratuitas por mês a cada sócio do clube.
Inicialmente, o Fiel da Sorte foi amplamente divulgado nos canais oficiais do clube e na Neo Química Arena, mas o programa foi esquecido a partir de abril de 2024, sem novas publicações em redes sociais ou sites. Apesar da ausência de promoção, os pagamentos à Incentiva Serviços Combinados, Tecnologia e Marketing Para Empresas LTDA., empresa encarregada dos sorteios, não cessaram, somando R$ 6,9 milhões.
A empresa Incentiva lista o Corinthians como seu único cliente, possuindo um capital social de somente R$ 50 mil. A companhia teve diversos sócios ao longo dos anos, com o proprietário atual residindo em Alagoas, enquanto a sede está localizada em Santana de Parnaíba, na região metropolitana de São Paulo.
Nos últimos três anos, os valores das prestações destinadas à Incentiva aumentaram de forma expressiva. O primeiro pagamento foi de R$ 124.488,75, em agosto de 2023, e o último, efetuado em abril de 2026, atingiu quase o triplo, somando R$ 343.522,50.
Durante esse intervalo, o Corinthians foi presidido por três pessoas distintas: Duilio Monteiro Alves em 2023, Augusto Melo de 2024 a maio de 2025, e atualmente por Osmar Stabile.
Um total de 34 prestações mensais foram pagas, conforme indicam planilhas e notas fiscais obtidas.
Em julho de 2026, o Corinthians solicitou a rescisão do contrato com a Incentiva, justificando a ação por descumprimento de cláusulas contratuais pela empresa. O clube busca uma indenização de R$ 3 milhões pelo término antecipado do vínculo, que estava previsto para 2028.
A atual diretoria do Corinthians segue apurando quais serviços não foram entregues e desde quando essa suposta falha teria ocorrido. A última autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Governo Federal para sorteios que envolviam a Incentiva expirou em setembro de 2024.
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Um relatório entregue ao Corinthians indicou que as “rabiscadinhas” foram ofertadas até 19 de dezembro de 2025.
A Incentiva, por outro lado, afirmou não ter sido notificada sobre a rescisão unilateral do acordo e declarou que “a campanha se manteve operacional com entregas até o final de maio de 2026”.
Mecanismo de pagamento e custos do Fiel da Sorte
Fontes anônimas revelaram que o contrato entre Corinthians e Incentiva previa o recebimento de R$ 3,75 mensais por cada torcedor que se associasse ao clube após abril de 2023, data do início da parceria.
Este valor era fixo, sem distinção da categoria do plano Fiel Torcedor ao qual o associado pertencia, sendo o plano de menor custo de R$ 14,90.
A OneFan, empresa que gerencia o sistema do Fiel Torcedor, era responsável por informar mensalmente o número de sócios adimplentes, determinando assim o montante a ser repassado pelo Corinthians à Incentiva. O aumento no quadro de associados nos últimos meses, mesmo sem a realização de sorteios, elevou o valor das parcelas.
Apesar de acumular débitos com diversos fornecedores e atletas, o clube honrou os pagamentos à Incentiva até abril de 2026, mês em que a direção decidiu suspendê-los.
Enquanto a Incentiva recebia centenas de milhares de reais, seus custos com a aquisição de prêmios eram relativamente baixos.
Por exemplo, entre junho e setembro de 2024, a empresa prometeu sortear 65 itens ou experiências, totalizando R$ 7.051,30, conforme certificado de autorização governamental.
Ex-presidentes e atual diretoria do Corinthians se posicionam sobre o caso
O ex-presidente Duilio Monteiro Alves, responsável pela assinatura do acordo, divulgou uma nota. Nela, afirmou que o contrato com a Incentiva visava aumentar as receitas por meio da venda de novos planos do Fiel Torcedor, incluindo o plano Fiel Digital para torcedores que não frequentam o estádio. Ele explicou que, além de sorteios e experiências, foram desenvolvidos conteúdos exclusivos para o Universo SCCP e um sistema de gamificação com moedas para incentivar a interação. Duilio acrescentou que todas as campanhas de incentivo para novos sócios exigiam aprovação prévia do Ministério da Economia, com o Corinthians e a empresa assinando cada nova iniciativa. Conforme a nota, a Incentiva tinha o compromisso contratual de adquirir produtos oficiais e experiências do Corinthians de forma onerosa, arcando com os custos mesmo que a arrecadação não fosse suficiente. O clube recebia o valor integral das novas receitas geradas pelos planos vendidos e repassava uma parte à empresa.
Augusto Melo, que sucedeu Duilio Monteiro Alves na presidência, declarou em uma mensagem de áudio que desconhecia o contrato e nunca esteve envolvido em discussões sobre o Fiel da Sorte.
A atual gestão, sob a presidência de Osmar Stabile, empossada há um ano e dois meses, também se manifestou por meio de nota. O Sport Club Corinthians Paulista informou que a rescisão com a Incentiva Serviços Combinados, Tecnologia e Marketing para Empresas Ltda. ocorreu em 2026, devido ao descumprimento contratual pela empresa. O clube ainda esclareceu que os pagamentos efetuados a partir de junho de 2025 foram realizados em conformidade com os procedimentos legais e contábeis internos.
Saiba mais sobre a empresa Incentiva e seus sócios
A empresa Incentiva foi estabelecida em agosto de 2021 por Rodrigo Gilotti. Originalmente, sua sede ficava no bairro Jabaquara, em São Paulo. Após seis meses, em colaboração com o Corinthians, a Incentiva lançou o “Coringão da Sorte”, um programa que oferecia sorteios e “rabiscadinhas” em plataformas digitais próprias.
A alteração para “Fiel da Sorte” ocorreu apenas em 2023, passando a operar dentro do aplicativo “Universo SCCP”, de propriedade do Corinthians.
Gilotti explicou, em troca de mensagens, que a mudança se deu pela “muito boa resposta e melhorou muito o engajamento, tanto que o super app se adequou por causa do engajamento das raspadinhas, que foi um sucesso”.
Sem fornecer detalhes específicos, o empresário informou que buscou o clube, realizou uma apresentação, e a parceria foi então iniciada.
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Em dezembro de 2023, a JK Comercio Internacional LTDA adquiriu 70% de participação na Incentiva, tornando-se sócia de Rodrigo Gilotti. A JK, sediada em Ibiraçu, Espírito Santo, está registrada como comércio atacadista de produtos alimentícios em geral e possui capital social de R$ 10 mil. A representante da empresa, Juliana Karla Oliveira Frigino, não foi encontrada.
Rodrigo Gilotti disse que, até onde sabia, Juliana era sócia de outra empresa de um de seus parceiros.
Cinco meses mais tarde, em maio de 2024, houve nova mudança: Rodrigo Gilotti saiu da empresa, e seu lugar foi ocupado por Anderson Gilotti e Claudio Caviola Foiani, ambos sócios de Rodrigo em outra empresa. Rodrigo preferiu não revelar o grau de parentesco com Anderson, apesar do mesmo sobrenome.
Em menos de quatro meses, em setembro de 2024, a Incentiva foi vendida a João Augusto de Queiroga Vanderley, um pernambucano de 64 anos sem experiência prévia em sorteios. Ele afirmou que “foi identificada uma oportunidade de negócio porque havia um contrato em andamento”.
João Otávio Vanderley, irmão e advogado do proprietário da Incentiva, explicou que seu irmão “é administrador de empresas, tem pós-graduação. Isso é um negócio, é uma plataforma de tecnologia, entendeu? Você contrata tecnologia, é outra história. Você não precisa ser médico para ter hospital, não precisa ser engenheiro para ter construtora. Oportunidade de negócio, pronto. Aparece, tem que pegar”.
Em dezembro de 2024, a sede da empresa foi realocada para um escritório comercial em Alphaville, uma área conhecida por concentrar diversas outras companhias.
O advogado da Incentiva se pronunciou sobre o impasse com o Corinthians, informando que “Houve uma notificação extrajudicial por parte do Corinthians, fazendo várias indagações sobre o contrato, isso por volta de maio, salvo engano. Caso não houvesse respostas, o contrato seria rescindido. Diante dessa notificação, a Incentiva fez uma contra notificação que até o presente momento não temos notícias. Em relação à rescisão do aludido contrato não teve nenhum comunicado oficial por parte do contratante e, em razão de sua indagação, recebemos com surpresa, pois a campanha se manteve operacional com entregas até o final de maio de 2026”.
Desde a aquisição da Incentiva por João Augusto, a empresa não conseguiu obter novas autorizações governamentais para promover sorteios em parceria com o Corinthians.
Foi justificado que “Ficou acordado que o Corinthians teria que assinar o pedido de autorização. Entendemos que Corinthians passa por tempos tempestuosos, houve muita confusão no clube e muitas medidas, como um simples pedido, foi procrastinado por pessoas que tinham que resolver, sendo que inúmeras vezes tentamos contato com o clube para assinatura do termo de adesão e a declaração de receita operacional, documentos exigidos pela SPA, para uma nova autorização, porém sem sucesso”.
Ao ser indagado sobre como a Incentiva realizou entregas até maio de 2026 sem a devida autorização governamental, o advogado declarou: “Não sei se houve sorteio, deve ter tido promoção para fidelização de sócios.”
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Em relação à falta de publicidade do Fiel da Sorte nos últimos dois anos, ele comentou: “Desde a primeira troca de administração e equipe técnica, o Fiel da Sorte deixou de ser divulgado pelas mídias oficiais do clube ou durante os jogos. Como o produto é um benefício oferecido pelo clube aos sócios, também era de sua responsabilidade a divulgação.”
Próximos passos e providências do Corinthians
Além das averiguações internas, o Corinthians pondera solicitar uma perícia judicial para determinar o valor de um possível ressarcimento.
O Corinthians solicitou o auxílio da OneFan para verificar a efetiva entrega dos prêmios sorteados aos sócios. No entanto, a OneFan, responsável pelo Fiel Torcedor e pelo aplicativo SCCP, não detém esse controle, que era de responsabilidade da própria Incentiva.
Imediatamente após a rescisão do acordo, o clube removeu todas as menções ao Fiel da Sorte de seus materiais e do aplicativo Universo SCCP. As duas últimas notas fiscais emitidas pela Incentiva não foram quitadas.

