Câncer contagioso afeta peixes em lago de fronteira entre EUA e Canadá

Redação
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Câncer contagioso afeta peixes em lago de fronteira entre EUA e Canadá

Há mais de dez anos, uma anomalia preocupa um lago na fronteira dos Estados Unidos com o Canadá. O lago Memphremagog, que divide Vermont e Quebec, tem sido o lar de bagres-cabeça-de-touro-marrons que, a partir de 2012, começaram a apresentar protuberâncias escuras e macias, observadas por pescadores. Mais tarde, especialistas em fauna selvagem confirmaram que se tratava de câncer de pele nos animais.

Melanomas são muito incomuns em bagres, contudo, mais de 30% dos peixes dessa espécie manifestavam os tumores. Cientistas agora suspeitam ter desvendado a causa: uma variante contagiosa de câncer está circulando pelo corpo d’água, conforme reportaram em 27 de julho de 2026.

Os pesquisadores pensam que a origem do surto foi um único bagre, que desenvolveu um tumor e dispersou células cancerígenas na água. As células, então, infectaram outros bagres, desencadeando o que se tornou uma epidemia no lago.

Tumores contagiosos já foram identificados em um número limitado de espécies, aparentemente sem conexão óbvia: cães, diabos-da-tasmânia, e certas variedades de mariscos e moluscos. No entanto, essas constatações já geraram uma série de indagações importantes no meio científico.

Parte dos cientistas sugere que os cânceres transmissíveis constituem, em si, novas espécies. Há quem defenda, inclusive, que certas espécies animais podem ter evoluído, há milhões de anos, a partir de células cancerígenas.

A recente detecção do primeiro câncer transmissível em peixes impulsiona os cientistas a reavaliar a extensão real desse fenômeno pelo planeta.

“Isso é realmente tão raro quanto pensamos ou simplesmente não estamos procurando?”, questiona Julie Dragon, geneticista da Universidade de Vermont e uma das autoras da nova pesquisa.

Dragon não tinha como objetivo inicial de sua pesquisa a busca por um câncer contagioso. Em 2014, ela foi convidada por biólogos do Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Vermont para auxiliar na investigação do motivo pelo qual os bagres-cabeça-de-touro-marrons do lago Memphremagog estavam adoecendo.

Embora a luz ultravioleta seja uma causa conhecida de melanomas, era pouco provável que os bagres, que habitam o fundo lodoso do lago e são mais ativos durante a noite, apresentassem níveis tão elevados da doença.

A geneticista e sua equipe examinaram outras hipóteses, como o impacto da poluição de um aterro sanitário nas proximidades e infecções por microrganismos capazes de provocar câncer. Contudo, os testes revelaram baixos níveis de poluentes nos peixes e nenhuma prova de vírus ou bactérias cancerígenas.

Então, Dragon optou por uma análise detalhada do DNA dos bagres, bem como do DNA mutado encontrado em seus tumores. Variações genéticas específicas podem aumentar a vulnerabilidade ao câncer em animais e seres humanos.

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Laboratório, cientistas
Laboratório, cientistas – PeopleImages/ Istockphoto.com

A expectativa inicial era que cada célula cancerígena fosse geneticamente mais parecida com o bagre hospedeiro. No entanto, os resultados mostraram que todas as células cancerígenas tinham grande semelhança entre si, mas não com os animais que as carregavam.

“Eu disse: ‘Nós cometemos um erro. Isso não pode estar certo’”, recorda Dragon. A equipe de pesquisa refez toda a análise e obteve o mesmo veredito: os tumores não tiveram origem nos próprios bagres infectados.

A cada nova amostra de DNA de peixe analisada, o padrão se confirmava com maior clareza. Assim, os cientistas começaram a contemplar uma hipótese alarmante: os bagres estavam sendo acometidos por uma forma contagiosa de câncer.

Desde o período do Renascimento, acadêmicos já levantavam a possibilidade de os cânceres serem infecciosos. Em 1603, o médico português Rodrigo de Castro chegou a descrever tumores “exalando um vapor horrível” que poderia contagiar novas pessoas.

A teoria de que o câncer seria “pegajoso” perdeu relevância quando a ciência moderna revelou que a doença normalmente resulta de mutações no próprio DNA de um organismo. Somente no início dos anos 2000, evidências concretas de cânceres transmissíveis começaram a surgir.

Os cães são hospedeiros de um tipo conhecido como CTVT, que significa tumor venéreo transmissível canino em inglês. Durante o acasalamento, as células cancerígenas podem ser transmitidas entre os animais. Análises de DNA desses tumores indicam que todas as variantes da doença tiveram origem em um único cão ancestral, há milhares de anos.

O CTVT geralmente não é letal. Contudo, a situação é diferente com um câncer contagioso que atinge os diabos-da-tasmânia.

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Nomeada de tumor facial do diabo-da-tasmânia, a enfermidade se aproveita das mordidas e sangramentos comuns nas brigas entre esses marsupiais. Se um diabo-da-tasmânia morde o tecido tumoral de outro, as células cancerígenas se deslocam pelo corpo do animal, manifestando-se no rosto.

Apesar de ter surgido há poucas décadas, esse câncer já conduziu os diabos-da-tasmânia à iminência da extinção.

Em 2015, nas costas do Atlântico, entre o Canadá e os Estados Unidos, cientistas detectaram amêijoas-de-casca-mole e outras espécies de moluscos gravemente afetadas por um câncer semelhante à leucemia. Verificou-se que as amêijoas doentes liberavam células cancerígenas na água do mar, que eram então absorvidas por animais saudáveis próximos.

Mais recentemente, câncer transmissível foi localizado em moluscos no Pacífico e em águas europeias. Agora, Dragon e sua equipe acreditam ter descoberto um novo caso de câncer contagioso em um hospedeiro totalmente distinto.

Os cientistas estão convictos de que todos os tumores no lago Memphremagog tiveram origem em uma única célula cancerígena ancestral. A forma de reprodução dos bagres-cabeça-de-touro-marrons pode ter facilitado a dispersão das células de melanoma, uma vez que os peixes se reúnem em águas rasas para a desova.

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“Eles ficam todos uns sobre os outros”, explica Dragon. Nesses aglomerados, durante o período de reprodução, os bagres podem morder ou arranhar uns aos outros, e as feridas resultantes podem deixá-los expostos às células cancerígenas que circulam na água.

Michael Metzger, pesquisador de cânceres contagiosos em moluscos no Instituto de Pesquisa do Noroeste do Pacífico, em Seattle, apontou que esta é a primeira ocorrência de um câncer transmissível encontrado em água doce. Normalmente, as células sobrevivem apenas em ambientes de água salgada.

“Isso nos faz repensar como essas coisas funcionam”, declara Metzger.

Dragon também descobriu sinais de que bagres em outras regiões do nordeste dos Estados Unidos podem ter sido afetados pelo mesmo tipo de câncer. Algumas dessas evidências provêm dos diários do século XIX do naturalista Henry David Thoreau.

Thoreau relatou que, com frequência, observava bagres em rios de Massachusetts com manchas. Em 1858, ele descreveu um exemplar no rio Assabet: “Quase metade da cabeça, do focinho para trás em diagonal, está coberta por uma espécie de lepra negra como tinta, semelhante a um líquen incrustado”, registrou.

Dragon e sua equipe expandiram a busca por cânceres transmissíveis em bagres para além do lago Memphremagog. Os pesquisadores também solicitam que pescadores e biólogos que encontrem bagres com tumores escuros e salientes compartilhem seus relatos.

É sugerido que sejam enviadas imagens do peixe completo, incluindo os tumores, e dados sobre o local da captura. Dragon também solicita, se possível, que o peixe inteiro seja congelado, para que ela e seus colegas possam providenciar a coleta e examiná-lo.

“É difícil dizer se toda mancha preta é o nosso tumor, mas não saberemos até testá-las”, afirma Dragon.

Peter Emerson, outro autor do estudo e biólogo especialista em pesca do Departamento de Pesca e Vida Selvagem de Vermont, orientou que pescadores não consumam bagres que apresentem tumores.

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“Não temos nenhuma evidência de que os peixes sejam inseguros para consumo. Nós apenas preferimos ser cautelosos”, declara Emerson.

Atualmente, poucas pesquisas sugerem a circulação de cânceres contagiosos entre humanos. Contudo, Elizabeth Murchison, especialista em cânceres transmissíveis da Universidade de Cambridge, disse que é possível que um deles surja um dia.

“Essa descoberta reforça a ideia de que cânceres transmissíveis podem surgir em qualquer lugar, incluindo na nossa própria espécie”, concluiu.

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