Goiás registra um feminicídio a cada 6,2 dias e alta de tentativas acende alerta

Redação
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Goiás registra um feminicídio a cada 6,2 dias e alta de tentativas acende alerta

Enquanto o Brasil apresentou uma redução de 2,5% nos casos de feminicídio no primeiro semestre de 2026, Goiás seguiu na direção oposta. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 e do Monitor Nacional da Violência contra a Mulher mostram que o estado vive um agravamento da violência de gênero, com aumento tanto dos assassinatos quanto das tentativas de feminicídio.

Em 2025, Goiás registrou 59 mulheres assassinadas por razões de gênero, um feminicídio a cada 6,2 dias. O número representa crescimento de 5,4% em relação aos 56 casos registrados em 2024 e de 9,3% quando comparado aos 54 feminicídios contabilizados em 2021.

As tentativas de feminicídio cresceram ainda mais. Foram 214 registros em 2025, contra 188 no ano anterior, alta de 13,8%. Na comparação com 2021, quando foram contabilizadas 144 tentativas, o aumento chega a 48,6%. Na prática, Goiás registrou quase uma tentativa de feminicídio a cada dois dias durante todo o ano passado.

O avanço da violência também aparece nos dados mais recentes do Monitor Nacional da Violência contra a Mulher, elaborado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública e pelo Ministério das Mulheres. Entre o primeiro semestre de 2025 e o mesmo período de 2026, Goiás passou de 22 para 47 casos de feminicídio, crescimento de 113,6%. No mesmo intervalo, o Brasil apresentou redução de 2,5% nos registros.

Embora os homicídios de mulheres tenham diminuído de 121 para 102 casos entre 2024 e 2025, redução de 15,7%, a proporção de feminicídios dentro desse universo aumentou. O dado demonstra que, mesmo com menos mulheres assassinadas de forma geral, uma parcela cada vez maior dessas mortes está relacionada à violência de gênero.

Para especialistas, os números revelam um fenômeno que vai muito além da segurança pública. Eles refletem relações marcadas pelo controle, pela desigualdade e pela violência que, muitas vezes, se desenvolvem durante anos antes de culminarem no assassinato da vítima.

Violência extrema começa muito antes do crime

Para a psicóloga Noemi Cappellesso, formada pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e especialista em Terapia Familiar e de Casal, o feminicídio representa o desfecho de um processo de violência que normalmente começa de forma silenciosa.

Na avaliação da especialista, não existe uma única explicação para o aumento dos casos. O problema envolve aspectos culturais, educacionais, familiares e emocionais que acabam moldando a forma como muitos homens aprendem a lidar com conflitos, frustrações e relacionamentos.

“A sociedade ainda desenha um modelo de menino que precisa ser forte, não pode levar desaforo para casa e deve usar a força para resolver conflitos, em vez do diálogo. Quando esse adulto não aprende a lidar com o ‘não’ e com a frustração, aumenta a possibilidade de recorrer à violência para impor sua vontade”, afirma.

Segundo Noemi, outro fator importante é a maneira como muitas famílias têm exercido a parentalidade.

Ela observa que a ausência emocional dos pais acaba sendo substituída por bens materiais, impedindo que crianças aprendam a reconhecer e administrar sentimentos.

“Muitos pais compram tudo para os filhos, mas não conseguem brincar, conversar ou ouvir suas histórias. Ter filho exige presença, responsabilidade e disponibilidade emocional. Filho não é troféu.”

Na avaliação da psicóloga, essa formação emocional deficiente pode contribuir para adultos incapazes de lidar com perdas, rejeições e limites.

Ela também chama atenção para o fortalecimento de grupos que difundem uma visão distorcida de masculinidade.

“Existem grupos que reforçam a ideia de que homem não pode demonstrar sentimentos, precisa ser respeitado a qualquer custo e provar constantemente sua masculinidade. Felizmente também existem grupos conduzidos por profissionais sérios, que ajudam homens a falar sobre suas dores e desenvolver inteligência emocional.”

Outro elemento apontado pela especialista é a influência das redes sociais.

Segundo Noemi, a necessidade permanente de construir uma imagem idealizada da própria vida pode aprofundar frustrações e alimentar comportamentos possessivos.

“O mau uso das redes sociais cria uma vida de personagem. Muitas pessoas passam a acreditar que só serão felizes se tiverem aquilo que enxergam na internet. Quem possui baixa autoestima pode buscar reconhecimento a qualquer preço e interpretar qualquer rejeição como uma afronta pessoal.”

Para ela, cada caso possui características próprias, mas compreender esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que os feminicídios continuam crescendo mesmo diante da ampliação das políticas públicas de enfrentamento à violência contra a mulher.

Escalada silenciosa

Se o feminicídio representa o estágio mais extremo da violência, ele quase nunca acontece de forma repentina. Segundo Noemi Cappellesso, o agressor dificilmente demonstra comportamento violento no início da relação.

“Um abusador nunca chega mostrando quem realmente é. Ele chega sedutor, prometendo um mundo. A vítima acredita que está sendo amada e vai construindo esse relacionamento sem perceber que, aos poucos, deixa de ser tratada como companheira e passa a ser vista como propriedade.”

É justamente essa transformação lenta que, segundo a psicóloga, faz com que muitas mulheres permaneçam durante anos em relações abusivas sem identificar que vivem um ciclo crescente de violência.

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