Antônio Carlos Camilo Antunes ‘Careca do INSS’ – Foto: Lula Marques/Agência Brasil
Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, prestou depoimento à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga fraudes em descontos de aposentadorias e pensões. A sessão ocorreu no Senado Federal, em Brasília, nesta quinta-feira (25), e durou cerca de nove horas. Preso desde 12 de setembro pela Polícia Federal, o empresário negou envolvimento no esquema estimado em R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024.
Durante a oitiva, Antunes se comprometeu a entregar documentos de suas empresas aos parlamentares. Ele destacou fragilidades no sistema do INSS como fator para as irregularidades. A CPMI busca identificar operadores e beneficiários dos desvios, que afetaram milhares de aposentados e pensionistas em todo o país.
O depoimento começou com tensão, incluindo discussões entre deputados e o advogado do investigado. Antunes rejeitou o apelido “Careca do INSS” e afirmou que seu patrimônio veio de trabalho honesto. Parlamentares questionaram repasses financeiros e ligações com outras entidades suspeitas.
Negação de participação e oferta de provas
Antunes negou qualquer responsabilidade pelas fraudes previdenciárias. Ele afirmou não possuir “inteligência para o lado da bandidagem” e sugeriu que a CPMI siga o fluxo de dinheiro para esclarecer os fatos.
O empresário ofereceu 18 milhões de páginas de documentos de suas companhias. Esses papéis podem ser entregues diretamente à comissão ou via Polícia Federal, conforme ele declarou durante a sessão.
Transferências financeiras sob suspeita
Senadores e deputados questionaram repasses entre empresas ligadas a Antunes e associações investigadas. Em 2022, a Ambec transferiu R$ 11 milhões para a Prospect, firma do depoente.
Antunes explicou o valor como investimento em um aplicativo para beneficiários do INSS. O senador Fabiano Contarato (PT-ES) criticou a justificativa, chamando-a de subestimação à inteligência da comissão.
Dados mostram que a Ambec elevou sua arrecadação de R$ 135 para R$ 16 milhões após procuração dada a Antunes em março de 2022.
Avanços na segurança do INSS
A exigência de biometria para autorizações, implementada em abril de 2024, foi citada por Antunes como medida positiva. Essa ferramenta visa proteger aposentados contra descontos não autorizados.
O sistema anterior apresentava vulnerabilidades que facilitavam filiações falsas. Com a biometria, o INSS bloqueou milhares de tentativas irregulares nos últimos meses.
- Mais de 1,4 milhão de descontos indevidos foram identificados em 2024.
- Devoluções automáticas ocorreram para 355 mil beneficiários até abril de 2025.
- Entidades como Ambec e Conafer respondem por 70% das reclamações.
Contatos com outros investigados
Antunes admitiu contato intermediado por Maurício Camisotti com a Ambec no fim de 2021. Ele negou, porém, trabalhar em conjunto com Camisotti, apontado como beneficiário final dos desvios.
Camisotti é investigado por suposta articulação em associações de fachada. A defesa de Antunes enfatizou que o contato visava cooperação técnica legítima.
Entidades com alto volume de desvios
A Confederação Nacional dos Agricultores Familiares (Conafer) registra o maior número de descontos irregulares. Sua arrecadação subiu de R$ 6,6 milhões para R$ 40 milhões, coincidindo com o pico das fraudes.
Investigações da PF apontam que a Conafer usou acordos de cooperação técnica para acessar benefícios. Mais de 60% dos aposentados em alguns municípios nordestinos foram afetados.
Outras entidades, como Adpap Prev e ABCB, enfrentam bloqueios judiciais. Elas negam irregularidades e afirmam ressarcir valores em dobro quando contestados.
Próximas oitivas na investigação
Na segunda-feira (29), a CPMI ouvirá Carlos Roberto Ferreira Lopes, presidente da Conafer. Ele deve explicar o crescimento da arrecadação da entidade.
O empresário Fernando dos Santos Andrade Cavalcanti também depõe no dia 29. Cavalcanti tem ligações com o advogado Nelson Wilians, cuja prisão preventiva foi aprovada pela comissão nesta quinta.
A CPMI aprovou 30 requerimentos, incluindo convocações de sócios e quebras de sigilo. Um projeto de lei em elaboração reforça controles sobre benefícios previdenciários.


