Três crianças yanomamis morrem por coqueluche, e Saúde manda equipe de emergência ao território – Folha de S.Paulo

Redação
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Três crianças yanomamis morrem por coqueluche, e Saúde manda equipe de emergência ao território – Folha de S.Paulo

A crise humanitária vivenciada pelos yanomamis inclui, agora, a incidência de coqueluche entre crianças da porção do território que fica em Roraima, inclusive com mortes de indígenas. A situação obrigou a uma ação emergencial do Ministério da Saúde, iniciada na segunda-feira (16).

A pasta confirma a ocorrência de três mortes de crianças yanomamis por coqueluche e de oito casos ao todo, segundo a detecção feita pelo DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena) Yanomami, que atua com equipes de saúde na região.

O ministério investiga o que está por trás do possível surto da doença, uma infecção respiratória causada por uma bactéria, evitável por vacinação e que tem como principal característica crises de tosse seca, com potencial de danos à traqueia e brônquios.

Nesta quinta (19), a Urihi Associação Yanomami —uma das mais atuantes nos primeiros momentos da declaração de emergência em saúde pública no território— afirmou em um comunicado que, desde o último dia 13, foram confirmadas cinco mortes por coqueluche.

“A situação é extremamente preocupante e está relacionada, entre outros fatores, à falha na cobertura vacinal da população yanomami contra a coqueluche”, disse a associação.

No Hospital da Criança Santo Antônio, em Boa Vista, três crianças yanomamis estão internadas em razão da doença, nenhuma delas em UTI, segundo gestores da unidade. Outras duas tiveram alta e retornaram às aldeias, conforme o Ministério da Saúde.

O hospital é referência para atendimento a crianças em Roraima e, no auge da crise humanitária dos yanomamis, atendeu a pacientes transferidos do território para a cidade. Esse deslocamento é feito de avião, em percursos de uma a duas horas.

Os três últimos boletins sobre a emergência em saúde pública na terra yanomami, que já dura três anos, não mencionam a incidência de coqueluche na área ao longo de 2025. Os casos foram detectados em 2026.

Equipes da Sesai (Secretaria de Saúde Indígena) e do EpiSUS (Programa de Treinamento em Epidemiologia Aplicada aos Serviços do SUS), vinculadas ao ministério, atuam para mapear a situação epidemiológica, não tendo sido identificada, ainda, uma razão específica para a incidência da doença.

Para tentar conter o provável surto de coqueluche, uma equipe de saúde foi enviada como reforço para o polo base de Surucucu, onde existe uma unidade de atendimento médico, numa posição estratégica na terra indígena.

Há busca ativa por novos casos, coleta de material para análise clínica e reforço de vacinação das crianças nas aldeias, segundo o Ministério da Saúde. Em 2022, apenas 29,8% das crianças yanomamis com menos de um ano tinham o esquema vacinal completo, segundo a pasta. Em 2025, esse índice foi de 57,8%.

Para conter surtos de coqueluche, a taxa deve ser superior a 90%, segundo especialistas. Quanto menor a criança, maior o risco de incidência grave da doença.

Reportagem da Folha publicada em outubro mostrou que o número de casos de coqueluche entre crianças com menos de cinco anos em todo o país teve um salto de 1.353% em 2024, em relação ao ano anterior. Foram 2.152 registros, contra 159 em 2023.

Também houve aumento expressivo de mortes. Em 2024, foram 14 óbitos entre crianças com menos de cinco anos, contra 10 no acumulado de 2019 a 2023. Dados do Ministério da Saúde mostram que houve, ao todo, 29 mortes por coqueluche em 2024 e 12 em 2025.

A crise humanitária dos yanomamis foi causada pela explosão do garimpo ilegal de ouro no território em Roraima, com cerca de 20 mil garimpeiros atuando na região, muitas vezes em áreas coladas a aldeias populosas.

A invasão era tolerada e estimulada pelo governo de Jair Bolsonaro (PL). No começo de 2023, o governo Lula (PT) deu início a ações de emergência em saúde na terra yanomami e a operações para expulsão de garimpeiros. Três anos depois, as ações seguem em curso.

Casos de desnutrição grave e de outras doenças associadas à fome —como pneumonia e diarreia— viraram rotina, assim como a incidência de malária.

Em 2024, o Ministério da Saúde registrou 33,3 mil casos de malária na terra yanomami, uma quantidade superior à própria população do território –são 27,1 mil indígenas na região, segundo dados do Censo de 2022.

Das 33,3 mil notificações, 14.672 (44%) se referem a crianças de 0 a 9 anos de idade. É a maior incidência entre faixas etárias, seguida da de 10 a 19 anos, com 8.889 casos (26,6%).

Os óbitos em geral, segundo o governo Lula, foram reduzidos desde o início da emergência em saúde pública. Foram 217 mortes notificadas em 2023, 159 em 2024 e 157 em 2025 – a comparação, porém, é feita entre os primeiros semestres desses anos, como consta no boletim mais recente divulgado pelo Ministério da Saúde.

Ainda segundo esses dados, as mortes por infecções respiratórias caíram 41%, e por desnutrição, 70%. O governo diz ainda que houve redução de 98% dos alertas de novas áreas de garimpo no território tradicional.

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