Participantes relatam procedimentos sem supervisão profissional
Medicamentos abortivos são vendidos por delivery em grupo de mensagens em Goiânia e Senador Canedo (Foto: enviada ao Mais Goiás)
Um grupo de WhatsApp funciona como comércio ilegal de medicamentos abortivos no Brasil. O ambiente digital de mensagens instantâneas para alcançar mulheres em situação de vulnerabilidade prevê entregas de Cytotec, utilizado para tratar úlceras gástricas, mas com efeitos colaterais como o aborto, inclusive em Goiás, na região metropolitana. Uma pessoa inserida nessa “comunidade” procurou o Mais Goiás nesta quinta-feira (19) para mostrar a situação que é, sobretudo, de desespero e falta de suporte.
Em Goiânia e Senador Canedo, onde funcionam os deliveries, a promessa dos administradores é de entrega em mãos, oferecendo o que chamam de “suporte e apoio” durante o procedimento. Os vendedores, que operam sob pseudônimos e perfis falsos, comercializam substâncias cuja venda é restrita a hospitais e rigorosamente controlada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A pessoa que procurou o Mais Goiás diz que entrou no grupo por um link. Ela, que ainda está presente, diz não conhecer nenhum dos 889 membros. Ao todo, 11 são administradores. Questionada se fez alguma denúncia às autoridades, ela afirma que ainda não, mas que tem interesse.
Para além da transação comercial, os relatos compartilhados dentro desses grupos revelam um cenário de dor e isolamento, onde procedimentos de alta complexidade médica são realizados sem qualquer supervisão profissional. Casos de contrações intensas, hemorragias e expulsão de fetos em estágios avançados de gestação são encontrados no grupo.
“O teu feto desceu pelo vaso. O meu acabei de enterrar. Era grande, não desceu pelo vaso”, narra uma pessoa no grupo. “Caiu no vaso, mas não peguei, estou em pânico, nervosa”, disse outra. Em mais relatos, uma participante revela que sentiu uma dor “insuportável” por duas horas após o uso do medicamento. “Saiu meninas. Depois de horas e horas com dor, saiu. O feto inteiro. Agora não sei o que fazer com ele, porque já está grande”, detalhou mais uma participante. “Eu não sangrei nada. Só um pouquinho, faltando cinco minutos para sair, mais ou menos.”
Uma das participantes contou sua história de forma cronológica. “Bom dia, meninas. Então, eu fiz o procedimento dia 5 de janeiro e, na correria da semana, eu com com medo de não ter dado certo, no meio do mês comprei mais nove comprimidos. (…) Acontece que, no dia 28 de janeiro, comecei a sangrar, ter sangramentos, e, no dia 1º de fevereiro, às 9h da noite, estourou a bolsa, começou a sair líquido e começaram as cólicas dores, as dores. Muita dor muita, cólica, e finalizei o procedimento 3 horas da manhã. Por esse motivo, eu estou vendendo esses novos comprimidos que eu tenho.” Ela, então, relata de onde é e pede que, quem quiser, pode falar com ela no privado.
As mensagens evidenciam uma busca pelo apoio em grupo de mulheres fragilizadas. Há, inclusive, textos de solidariedade. “Você foi muito forte, parabéns.” E ainda: “Que bom que deu tudo certo. Depois conta como foi.” Em outra publicação, uma das participantes sugere o que fazer após o aborto. “Põe em uma caixinha e enterra.” A pessoa, contudo, afirma que já tinha deixado “em um saco preto.”
Crime
Vale citar que a venda do Cytotec é proibida no Brasil para uso comercial em farmácias, sendo considerada crime contra a saúde pública. A utilização consciente para interromper a gravidez fora dos casos permitidos é se enquadra no crime de aborto, com pena de reclusão de 1 ano a 3 anos.


