Direita fala em “fórmula chilena” para minimizar fragmentação em 2026

Em ano de eleição no país, a direita brasileira se fragmenta entre bolsonaristas e moderados para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição. Sob o cenário de um eventual 2º turno, figuras políticas alinhadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) falam sobre uma união no espectro político baseada no modelo eleitoral do Chile para cercar o concorrente petista.

Diferentemente da esquerda, que conta com uma candidatura única com mais destaque até o momento, a direita é um tabuleiro com múltiplas peças, o que relembra a eleição do Chile no ano passado: Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo) [ala bolsonarista], Ronaldo Caiado (PSD), Ratinho Jr. (PSD), Eduardo Leite (PSD) e Renan Santos (Missão) [ala moderada].


O que aconteceu nas eleições de 2025 no Chile?

  • Em 2025, a direita do Chile concentrou grande parte da disputa no primeiro turno, com três candidatos.
  • Eram eles: José Antonio Kast (Republicanos – Direita Radical), Evelyn Matthei (UDI – Centro-Direita) e Johannes Kaiser (Libertário) para competir com a liderança da esquerda, a comunista Jeanette Jara.
  • Apesar de Jara liderar o primeiro turno com 30%, não conseguiu progresso com o eleitorado moderado para manter o favoritismo na outra etapa.
  • Ao analisar a situação política de que a comunista Jara iria disputar com o conservador Kast, Matthei não esperou e oficializou seu apoio ao candidato da direita.
  • Com a transferência dos votos dos dois conservadores derrotados no 1º turno, Kast venceu com 58,2% contra 41,8% de Jara no 2º turno.

A comparação ganhou notoriedade após o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na Papudinha. Segundo Tarcísio, Bolsonaro não vê problema em novas candidaturas da direita e sim as enxerga como uma “grande força” em prol da união no 2º turno.

Especialistas ouvidos pelo Metrópoles alertam para dois cenários distintos quando o xadrez político do Brasil é comparado com o do Chile: a fragmentação da direita é estratégica e o 1º turno serve para o eleitor escolher o melhor gestor para o embate com Lula; a polarização no Brasil, dividido entre Lula e o herdeiro do bolsonarismo, esmaga candidatos de terceira via, tendo uma relevância inexpressiva no apoio.

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Metrópoles

Flávio Bolsonaro foi indicado por seu pai, Jair, para concorrer à Presidência

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Flávio Bolsonaro foi indicado por seu pai, Jair, para concorrer à Presidência

Vinícius Schmidt/Metrópoles

Romeu Zema, governador de Minas

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Romeu Zema, governador de Minas

KEBEC NOGUEIRA/METRÓPOLES

Caiado inicia bate boca entre deputados em comissão da PEC da Segurança

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Caiado inicia bate boca entre deputados em comissão da PEC da Segurança

Reprodução Câmara dos Deputados

Ratinho Júnior

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Ratinho Júnior

Rafaela Felicciano/Metrópoles

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite

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O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite

Gustavo Mansur/ Palácio Piratini

renan santos mbl

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renan santos mbl

Divulgação

Adjacência ideológica na direita

Para Antônio Lavareda, doutor em ciência política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), o eleitor de direita tende a votar em candidatos adjacentes às suas noções ideológicas. Ou seja, o 1º turno funcionaria como uma espécie de eleição “primária embutida” (votação que acontece antes da oficial) que funciona como uma “seletiva” da direita.

“Por conta do critério de voto e adjacência ideológica, a divisão faz a força. O que vamos ter na direita esse ano é uma coisa parecida com as eleições municipais em 2024, uma espécie de primária, como nos EUA. O campo da direita definirá qual é o candidato do 2º turno e, pela adjacência, a maioria significativa tende a se inclinar para o escolhido contra Lula”, disse.

A escolha do ex-presidente da República, ao nomear Flávio como seu sucessor e descartar Tarcísio, ocasionou divergências entre os eleitores conservadores que ficaram receosos quanto ao preterido para herdar o bolsonarismo. No entanto, mesmo com uma rejeição parcial, Lavareda aponta que Flávio receberia uma transferência de votos da maior parte dos direitistas.

A polarização como barreira para o modelo chileno

O mestre em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB) Lucio Rennó explica que a polarização atropela candidatos de terceira via que não herdam o nome do bolsonarismo.

Segundo ele, este fator inviabiliza a “aplicação do modelo chileno” em razão do Brasil ter mais divisão política do que no Chile, onde, na nação sul-americana, os votos foram mais distribuídos, enquanto no nosso país, a hegemonia do petismo e do bolsonarismo se mantém.

“Não haverá múltiplas candidaturas relevantes – o bolsonarismo domina a direita e isso não mudará até outubro. A terceira via terá o mesmo desempenho medíocre que teve em 2022. Haverá um segundo turno entre Lula, que é hegemônico na esquerda, e uma candidatura bolsonarista na direita, tudo indica, encabeçada por Flávio Bolsonaro”, pontuou Rennó.

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O especialista político também não descarta eventual desistência das pré-candidaturas do PSD, ao afirmar que o mais provável é que Ratinho Jr e Eduardo Leite se candidatem ao Senado, deixando um 2º turno entre Lula e Flávio ainda mais previsível. Ele mencionou que Caiado pode insistir na disputa, no entanto, devido à polarização, a chance de exercer influência sobre o eleitorado é mínima.