Homenagem a Lula leva política para a Sapucaí e deixa PT e oposição em alerta

O desfile da Acadêmicos de Niterói — primeira escola a entrar na Marquês de Sapucaí pelo grupo especial do Carnaval do Rio de Janeiro este ano — mobilizará não apenas foliões, mas também o mundo político neste domingo (15/2). A agremiação estreia na elite da folia carioca com um enredo dedicado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Às vésperas da disputa presidencial, a homenagem ganhou dimensão política. Enquanto partidos de oposição veem no espetáculo indícios de campanha antecipada, dirigentes do PT admitem, nos bastidores, preocupação com eventual desgaste à imagem de Lula.

Em “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a escola contará a trajetória do petista e incluirá no samba-enredo referências diretas ao universo do PT. A letra reproduz um dos gritos de guerra entoados pela militância (“Olê, olê, olê, ola, Lula, Lula”) e menciona, em duas passagens, o número de urna do partido.

O enredo também faz menção ao “legado do lulismo” e classifica o petista como o “político mais bem-sucedido de seu tempo”. Nas redes, a Acadêmicos de Niterói tem utilizado imagens oficiais de Lula e um dos motes da campanha de 2022 (“O amor vai vencer o medo”) para vender o desfile, que contará com cinco carros alegóricos e 3.100 componentes.

Lula deve assistir à apresentação em um camarote da Prefeitura do Rio, ao lado do prefeito Eduardo Paes (PSD), que é cotado para disputar o governo do estado com apoio do presidente. A primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, deve desfilar em uma das alas da escola. A combinação elevou a temperatura do debate jurídico e eleitoral em torno do desfile.

Oposição vê campanha antecipada

Para políticos da oposição, a passagem da escola de Niterói pela Sapucaí representará uma espécie de campanha antecipada da reeleição de Lula. O enredo já é alvo de questionamentos na Justiça Federal e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A Corte Eleitoral rejeitou, na última semana, um pedido para barrar a apresentação da escola, mas alertou que eventuais ilícitos poderiam ser analisados após o desfile.

A presidente do TSE, ministra Cármen Lúcia, destacou que o caso não foi arquivado e avaliou que havia um “risco muito concreto” de que delitos eleitorais pudessem ocorrer.

“Anuncia-se como partícipes ou possíveis participantes pessoas que já se anunciaram como sendo eventuais candidatos, o que significa que há, pelo menos, um risco muito concreto e plausível de que venha a acontecer algum ilícito que será objeto da atuação desta Justiça Eleitoral”, disse.

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Principal partido de oposição, o PL deverá ficar “de olhos abertos” para possíveis deslizes de aliados de Lula no desfile. Dirigentes da sigla avaliam que eventos do tipo podem ser configurados como propaganda antecipada, o que pode levar à aplicação de multa contra Lula.

Membros da cúpula do partido relembram que um cenário semelhante ocorreu em 2022, quando o PT foi à Justiça Eleitoral para impedir a utilização de imagens do desfile do Sete de Setembro na campanha de Jair Bolsonaro.

O líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), afirmou que o grupo vai “aguardar” o desfile para avaliar contestações jurídicas.

“Vamos aguardar sem pré-julgamento. Se ficar claro que é propaganda antecipada de campanha com dinheiro público, com certeza, o partido tomará todas as medidas judiciais cabíveis”, disse.

Além do conteúdo do enredo, a oposição também questiona repasses de verbas federais ao Carnaval. Parlamentares acusam o governo de financiar indevidamente a Acadêmicos de Niterói por meio de recursos da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), que destinou R$ 12 milhões ao grupo especial — R$ 1 milhão para cada agremiação, incluindo a escola de Niterói.

O partido Novo levou o caso ao Tribunal de Contas da União (TCU) e pediu a suspensão dos repasses. No início do mês, o ministro Aroldo Cedraz rejeitou bloquear os recursos da Acadêmicos de Niterói, mas determinou que a Embratur e a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio (Liesa) prestem esclarecimentos sobre possíveis irregularidades.


  • O presidente Lula vai ser tema do desfile da Acadêmicos de Niterói, estreante no grupo especial do Carnaval carioca, na Marquês de Sapucaí.
  • A agremiação contará a história do petista. O samba-enredo, que vai embalar a passagem da escola de Niterói, tem um dos gritos de guerra da militância do PT.
  • O desfile deverá contar com 25 alas, cinco carros alegóricos e 3.100 componentes.
  • Assessoria jurídica do Planalto alertou para riscos de crimes eleitorais no desfile e orientou que membros do governo evitem manifestações eleitorais.
  • Lula deve acompanhar desfile em camarote. A primeira-dama Janja deve desfilar.

No PT, contenção de danos

Um dos dirigentes nacionais do PT reconhece que o desfile é um “prato cheio” para um eventual desgaste de Lula às vésperas das eleições. Segundo ele, ao perceber o risco de judicialização, a cúpula da sigla passou a discutir uma espécie de “contenção de danos”.

O partido “desestimulou”, nas palavras de outro membro da direção nacional, a participação de deputados e ministros no desfile, em uma tentativa de evitar ainda mais a politização do evento.

A assessoria jurídica do Palácio do Planalto também orientou membros do alto escalão do governo a não desfilar neste domingo. A única exceção deve ser a ministra Anielle Franco (Igualdade Racial).

Em outra clara indicação do temor interno, a cúpula do PT publicou, no sábado (14/2), uma lista de recomendações aos filiados a fim de evitar manifestações de cunho eleitoral.

“O que é certo dizer é que o PT tem adotado, nesses últimos dias, medidas de contenção de danos”, afirmou um dirigente.

Um dos comandantes da direção fluminense da sigla reconheceu que há um “claro receio da judicialização”. “Nesse momento, com as eleições a alguns meses de distância, é um desgaste desnecessário”, disse.

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Metrópoles

Logo do enredo da Acadêmicos de Niterói em homenagem ao presidente Lula.

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Logo do enredo da Acadêmicos de Niterói em homenagem ao presidente Lula.

Reprodução/Acadêmicos de Niterói

O presidente Lula se reuniu com compositores e dirigentes da Acadêmicos de Niterói em 2025.

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O presidente Lula se reuniu com compositores e dirigentes da Acadêmicos de Niterói em 2025.

Ricardo Stuckert/Presidência da República

O presidente da Acadêmicos de Niterói, Wallace Palhares, se encontrou com a ministra Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais).

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O presidente da Acadêmicos de Niterói, Wallace Palhares, se encontrou com a ministra Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais).

Brito Júnior/SRI

A primeira-dama Rosângela Lula da Silva ao lado do presidente da Acadêmicos de Niterói, Wallace Palhares, em ensaio na Marquês de Sapucaí.

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A primeira-dama Rosângela Lula da Silva ao lado do presidente da Acadêmicos de Niterói, Wallace Palhares, em ensaio na Marquês de Sapucaí.

S1 Fotografia e Comunicação

A ministra Anielle Franco ao lado do presidente da Acadêmicos de Niterói, Wallace Palhares, em ensaio na Marquês de Sapucaí.

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A ministra Anielle Franco ao lado do presidente da Acadêmicos de Niterói, Wallace Palhares, em ensaio na Marquês de Sapucaí.

S1 Fotografia e Comunicação

Os riscos do desfile também foram discutidos em reuniões no Planalto, segundo relatos. Na última sexta (13/2), a Comissão de Ética Pública da Presidência emitiu uma lista de orientações a membros do governo Lula.

O órgão defendeu que sejam evitadas manifestações que “possam vir a ser caracterizadas como propaganda eleitoral antecipada”. Também recomendou que viagens para o Carnaval não sejam custeadas com dinheiro público.

Responsável pelas campanhas vitoriosas dos primeiros mandatos de Lula e de Dilma Rousseff, o marqueteiro João Santana criticou o desfile em homenagem ao petista na Sapucaí.

Em uma rede social, Santana avaliou que o “tiro pode sair pela culatra” e afetar o desempenho eleitoral de Lula em locais nos quais o petista ainda precisa de votos.

“Me parece que se produzirá um cenário de soma negativa, onde todos saem perdendo”, disse.