Professores denunciam salários atrasados e alunos cobram por diploma no Instituto Delta Proto, em Rio Verde

Com convênios suspensos e salários atrasados, instituição entrou em colapso após a prisão do delegado Dannilo Proto e de sua esposa Karen

Imagem das viaturas em frente ao instituto

Alunos chegaram a chamar a Polícia Militar após o anúncio do fim dos cursos (Foto: cedida ao Mais Goiás)

Inglid Martins

Professores sem salário, alunos sem diploma e um instituto à beira do colapso. Esse é o cenário vivido no Instituto Delta Proto, em Rio Verde, após o cancelamento repentino de turmas, comunicado na segunda-feira (9/2), em meio à crise provocada pela prisão de seus proprietários, o delegado Dannilo Proto e sua esposa Karen Proto. O casal é investigado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), do Ministério Público, por um esquema de desvio de recursos públicos, fraude em concursos e contratos educacionais, além de coação.

Ao Mais Goiás, ex-funcionários e alunos que preferem não se identificar, relataram o caos instaurado com o encerramento das atividades. O fechamento das turmas atingiu diretamente estudantes de cursos técnicos e profissionalizantes, como Radiologia, Necropsia e Estética, que foram informados por mensagens da coordenação pedagógica de que as aulas seriam suspensas por “baixa quantidade de alunos”. Para muitos, a notícia veio após meses de investimento financeiro, abandono de empregos e reorganização da vida pessoal para tentar concluir a formação.

O impacto foi imediato. “Todo mundo ficou triste. Eu fui dormir sem imaginar nada e, de madrugada, já não consegui mais dormir. A gente não estava esperando uma coisa dessas”, contou uma aluna. Segundo ela, o clima foi de choque coletivo. “Foi como uma bomba. A gente não sabe o que vai fazer agora”.

No caso das alunas de Estética, a situação é ainda mais grave. Em Rio Verde, o Instituto Delta Proto era a única instituição que oferecia o curso. “Aqui não tem outro curso de Estética. Só tinha no Instituto Delta. Agora dizem que vão dar só algumas horas feitas, mas isso não é concluir o curso”, disse uma estudante.

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Alunos na recepção sem saber como irão continuar os cursos
Instituto Delta Proto fecha turmas e expõe colapso após investigações contra seus donos (Foto: cedida ao Mais Goiás)

Além do cancelamento das aulas, os alunos relatam um cenário de total desorganização administrativa. Parte das turmas recebeu apenas declarações de transferência e históricos escolares feitos manualmente, enquanto outras ficaram sem documentação mínima. Segundo estudantes, o próprio coordenador afirmou não ter acesso ao sistema financeiro para cancelar contratos ou emitir documentos definitivos, o que aumentou o medo de futuras cobranças mesmo com o encerramento das atividades.

Pendências fiscais suspendem estágios

Os estágios obrigatórios, fundamentais para a conclusão dos cursos, também foram interrompidos. Alunos afirmam que já tinham passado por integração em unidades de saúde, como Unidades de Pronto Atendimento (UPA), quando descobriram que convênios haviam sido cancelados por falta de regularização fiscal. Segundo os estudantes, foi informado que há pendências com o município, com o Estado e também uma dívida federal, o que inviabilizou a continuidade dos contratos.

O instituto também acumula dívidas com o imóvel onde funciona. Segundo relatos, eram pelo menos sete meses de aluguel atrasado, além de contas de água e energia em aberto. O proprietário chegou a acionar a Justiça para desocupação do prédio e há tentativa de venda da escola para quitar os débitos, mas o negócio não foi concluído, agravando ainda mais a crise.

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Salários atrasados

Do lado dos professores, o cenário é de angústia e abandono. Uma docente afirmou que os atrasos salariais já ocorriam antes mesmo das prisões. “Mesmo quando o Dannilo e a Karen estavam à frente, a gente já não recebia em dia. Agora ficou ainda pior”, disse.

Ela contou que está sem receber desde o mês janeiro. “Estou sem receber até agora. E ninguém sabe dizer quando vai pagar”. Para os docentes, a chance de que o dinheiro ainda exista é mínima. “Pelo que a gente sabe, tudo foi bloqueado. A gente não sabe se vai ver esse dinheiro”, afirmou.

Alguns professores já começaram a deixar a instituição. Uma das docentes mais antigas pediu desligamento após passar meses sem receber, o que reforçou entre os colegas a percepção de que o Instituto pode não sobreviver à crise.

Enquanto isso, alunos seguem sem aulas, sem estágio, sem diploma e sem garantia de transferência. Muitos investiram economias, abriram mão de empregos e planejaram o futuro em torno de uma formação que agora pode nunca ser concluída.

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