Aprendizado de matemática em Goiás cai depois da pandemia, revela pesquisa

O percentual de jovens que concluem o Ensino Médio até os 18 anos com aprendizado acima do nível básico em matemática caiu no Brasil entre 2019 e 2023, período marcado pelos impactos da pandemia da Covid-19. Goiás, apesar de seguir entre os estados com melhor desempenho, também registrou uma retração significativa dos indicadores. 

Dados do Índice de Inclusão Educacional (IIE) msotram que o estado passou de 34,2% antes da pandemia para 27% no cenário pós-pandêmico. Antes da crise epidemiológica, Goiás aparecia com o segundo melhor desempenho do país. Atualmente é o terceiro. O levantamento revela ainda que nenhum estado brasileiro conseguiu alcançar 30% dos jovens com conhecimento considerado adequado no período analisado.

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No cenário nacional, a queda foi de 4,1 pontos percentuais. O índice caiu de 25,5% em 2019 para 21,4% em 2023. O diagnóstico aponta que, atualmente, menos de três em cada dez jovens atingem o nível esperado de aprendizado em matemática ao final da educação básicsa.

Além de Goiás, outros estados que lideravam o ranking antes da pandemia também apresentaram queda. O Paraná passou de 33,6% para 28,1%. O Distrito Federal caiu de 33,4% para 22,5%. O Espírito Santo recuou de 32,8% para 27,7%, enquanto Minas Gerais saiu de 29,5% para 22,6%.

O IIE foi desenvolvido pela organização Metas Sociais a pedido do Instituto Natura e tem como objetivo retratar a proporção de indivíduos que concluem a educação básica na idade adequada e com desempenho minimamente satisfatório. A ferramenta reúne dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), do Censo Escolar e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD).

“O caminho é o investimento” 

Para analisar os números, o Mais Goiás ouviu o mestre em Educação e coordenador do curso de Licenciatura em Matemática da Universidade Federal de Goiás (UFG), Humberto de Assis Clímaco. Segundo ele, a queda pode estar diretamente relacionada à falta de investimentos estruturais no setor.

“Nada se resolve sem investimento. O investimento em si pode não ser uma garantia, mas é certo que sem ele não podemos ter uma solução. Como melhorar o ensino sem ele? Nos países onde foram percebidas melhoras nas condições gerais de ensino houve investimento pesado”, defendeu.

O professor avalia que os prejuízos vão além da pandemia e envolvem a desvalorização da carreira docente. “Sabemos que A pandemia prejudicou o ensino, mas para além da pandemia penso que a desvalorização geral da condição de professor também contribui com esse cenário. Isso passa por questões não apenas pessoais, mas profissionais. Hoje, a gente vê, por exemplo, a autonomia desses profissionais prejudicada”.

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Cruzamento de dados entre 2019 e 2023 revela que nenhum estado apresentou evolução no conhecimento básico em Matemática (Imagem: Reprodução)

Clímaco também critica o foco excessivo, e, para ele, de algum modo prejudicial, em simplesmente obter boas notas nas avaliações externas, como é o caso do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), por exemplo. “É uma forma de tentar correr atrás de uma coisa que, no fundo , não resolve o problema. Temos bons professores de matemática na rede, mas às vezes eles ficam prejudicados pela falta de autonomia e necessidade de seguir o que é imposto”.

Presente e futuro 

Questionado se o avanço das diferentes tecnologias e inteligência artificial (IA) pode ter alguma influência nesses resultados, o coordenador pondera que não é possível atribuir os números apenas a esses fatores. “Eu não sou dos mais otimistas em relação aos avanços tecnológicos, mas também não sou pessimista. Vejo, hoje, que alguns dos melhores alunos usam a IA para corrigir exercícios, por exemplo. Então, acho difícil cravar que as tecnologias são responsáveis pelos maus resultados, eu não afirmaria isso pois conheço muitas experiências de sucesso. Eu sei que tem um lado perigoso, mas não atribuiria esses indicadores ao excesso de exposição”.

Ao analisar o cenário atual, ele demonstra preocupação com o futuro. “Eu fico preocupado. Sabemos que uma pandemia existiu e isso nos leva a pensar como será daqui 5 anos. Teremos uma melhora significativa, vai continuar ruim ou vai piorar? Isso causa preocupação pois os governos federais, estaduais e municipais precisam olhar com mais carinho para a situação e fazer investimentos cada vez maiores”.

Fator Covid-19

A reportagem também procurou a Secretaria de Estado da Educação de Goiás (Seduc), que se manifestou por meio de nota. No posicionamento oficial, a pasta destacou que “a análise dos dados do Índice de Inclusão Educacional (IIE) deve ser ponderada pelo cenário macroeducacional e as especificidades da rede pública estadual”.

A Seduc ressaltou ainda que “é fundamental pontuar que o índice citado refere-se ao ano de 2023 e compila dados de todas as redes de ensino, não refletindo isoladamente o desempenho da rede estadual”, além de afirmar que “a retração nos índices de proficiência em Matemática é um fenômeno diagnosticado em todo o Brasil e também globalmente, consequência direta do período pandêmico da Covid-19, que impactou severamente o desenvolvimento de competências que necessitam de instrumentos presenciais e de forma continuada”.

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Mesmo diante do cenário nacional, a secretaria destacou avanços da rede estadual. “Mesmo assim, alcançamos resultados robustos fruto de uma gestão técnica, democrática e séria: Goiás alcançou o 1º lugar no Ideb no Ensino Médio no ano de 2023, consolidando-se como a principal referência de ensino público no país”.

A pasta também citou o desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio. “No Enem 2025, conseguimos avançar consideravelmente no número de estudantes da rede que alcançaram notas auspiciosas em Matemática (sendo premiados mais de 60 alunos com 850 pontos ou mais)”.

Outro ponto destacado foi a redução da distorção idade-série. “A rede estadual de educação de Goiás registrou uma queda significativa na taxa de distorção idade-série. Isso significa que mais alunos estão concluindo o Ensino Médio na idade correta (até os 18 anos)”, além de mencionar que “a a rede possui hoje uma taxa de aprovação de 99%, reflexo de políticas eficazes de combate à evasão e ao abandono escolar”.

Por fim, a secretaria informou que atua em  pelo menos três frentes para recompor as perdas de aprendizagem: o programa Bolsa Estudo, ações de recomposição focadas em Matemática e Língua Portuguesa e a distribuição de chromebooks a todos os estudantes do Ensino Médio, utilizados tanto em casa quanto em sala de aula como ferramenta pedagógica.