Um adolescente ferido no incêndio que consumiu um bar suíço durante as comemorações de Ano Novo morreu no hospital neste sábado (31), elevando o número de mortos para 41, conforme anunciado neste domingo. A tragédia durante a festa no Le Constellation, na estação de esqui de Crans-Montana, também culminou em 115 feridos, a maioria das quais permanece internada em diversos hospitais.
“Um cidadão suíço de 18 anos morreu em um hospital em Zurique no dia 31 de janeiro”, disse a procuradora pública do cantão de Valais, Beatrice Pilloud, em um breve comunicado.
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“O número de mortos no incêndio no bar Le Constellation em 1º de janeiro de 2026 subiu para 41.”
Pilloud afirmou que nenhuma informação adicional será divulgada neste momento por seu gabinete, que está investigando a tragédia.
As vítimas fatais do desastre tinham entre 14 e 39 anos, mas a maioria era adolescente. Apenas quatro tinham mais de 24 anos.
Entre os mortos encontram-se 23 cidadãos suíços, incluindo um cidadão com dupla nacionalidade franco-suíça, e 18 estrangeiros.
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Entre eles, estão oito cidadãos franceses, incluindo uma jovem franco-britânica-israelense; seis adolescentes italianos, incluindo um com dupla nacionalidade ítalo-emiradense; e um belga, um português, um romeno e um turco.
Os promotores acreditam que o incêndio começou quando os frequentadores da festa ergueram garrafas de champanhe com velas de faísca muito perto da espuma de isolamento acústico no teto do porão do bar.
Quatro pessoas estão atualmente sob investigação criminal: os coproprietários do bar, o atual chefe de segurança pública do município de Crans-Montana e um ex-oficial de segurança contra incêndio de Crans-Montana.
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Após o incêndio, pacientes gravemente feridos foram transportados de helicóptero para diversos hospitais e unidades especializadas em queimaduras na Suíça e em outros quatro países europeus.
O Gabinete Federal de Proteção Civil da Suíça informou à AFP nesta sexta-feira que, segundo o último levantamento, realizado na segunda-feira, 44 pacientes estavam sendo tratados no exterior. Destes, 18 estavam na França, 12 na Itália, oito na Alemanha e seis na Bélgica.
O Ministério da Saúde do Valais informou à AFP que, na segunda-feira, 37 pacientes permaneciam internados em hospitais suíços.
O cenário está em constante mudança, com pacientes sendo transferidos entre hospitais para diferentes etapas do tratamento, e alguns pacientes sendo readmitidos. Alguns permanecem em terapia intensiva.
Donos culpam garçonete
Em depoimentos, os proprietários do bar Jacques Moretti, de 49 anos, e sua esposa, Jessica Moretti, de 40, apontam a garçonete Cyane Panine, de 24 anos, como a responsável por iniciar o incêndio.
Segundo registros de interrogatório vazados e vistos pelo jornal francês Le Parisien, o casal disse mais de uma vez aos promotores: “Não somos nós, são os outros”. Um dos interrogatórios durou cerca de 20 horas. Nos depoimentos, eles atribuíram, mais uma vez, a responsabilidade pelo incêndio à funcionária.
No curso das investigações, uma testemunha deu uma declaração, que consta em um relatório oficial elaborado pelas autoridades suíças, de que Cyane usava um capacete que impedia a visão em determinados ângulos, o que teria impedido de ver que as velas de faíscas, que estavam presas a garrafas de champagne que ela segurava, tocavam o teto.
Essa testemunha afirmou que Cyane usou o capacete a pedido da gerente do bar, Jessica. Esse é um item promocional da Dom Perignon, marca do champagne das garrafas que ela segurava e tinham as velas de faísca presas. A jovem está entre as vítimas que morreram no incêndio.
No novo interrogatório, Jacques disse que esse era “o show da Cyane”. Segundo relatou, ele não a proibia de fazer essa apresentação.
“Eu não a obriguei a prestar atenção às instruções de segurança. Nós não percebemos o perigo. Cyane gostava de fazer aquilo – era um espetáculo, ela gostava de participar do espetáculo”, divulgou o jornal Le Parisien.
Na audiência realizada em 20 de janeiro, Jessica afirmou que “Cyane gostava de entregar essas garrafas – ela fazia isso por iniciativa própria”, destacou a publicação.
A versão do casal contradiz o que a família da garçonete já veio a público se posicionar logo após o caso. A advogada Sophie Haenni, que representa a família de Cyane, disse que a jovem “não deveria estar servindo mesas” na noite do incêndio, mas que foi pedido para descer para ajudar no atendimento e na alta demanda de garrafas. O pedido teria vindo de Jessica. A declaração foi dada em entrevista à BBC, cerca de duas semanas após o incêndio.
— Não foi a própria Cyane que decidiu usar esse capacete, foi a pedido de seus empregadores. Ela estava apenas fazendo seu trabalho — disse Sophie Haenni à rede britânica. A advogada ainda destacou que Cyane nunca foi informada “do perigo do teto e não recebeu nenhum treinamento de segurança”.
O teto do bar, estabelecimento que funcionava num porão, era revestido com uma espuma de isolamento acústico. O material inflamável teria propagado as chamas rapidamente.
Porta de emergência trancada
Um funcionário, que não teve a identidade divulgada, disse em depoimento que não fazia ideia onde era guardados os extintores. Jacques disse que talvez tenha esquecido de passar essa informação para o funcionário.
Outro homem que trabalhava no bar é apontado pelo casal como o responsável pela porta de saída de emergência estar trancada, o que impediu que pessoas conseguissem se salvar. Uma das que tentou sair do estabelecimento por este caminho e não conseguiu foi Cyane.
“A porta estava sempre aberta”, disse Jessica à investigação. “Não passa um dia sem que eu me pergunte por que aquela porta estava fechada naquela noite. Sempre dizíamos que a porta estava sempre aberta, e isso era dado como certo”, afirmou.
Segundo Jacques, o funcionário a teria trancado após receber uma encomenda de gelo e fechar a trava na parte superior da porta. Em entrevista ao Le Parisien, o funcionário em questão negou qualquer irregularidade e disse: “Eu não fechei uma porta que já estava trancada”.
Casal em liberdade
Jacques e Jessica Moretti podem responder pelos crimes de “homicídio culposo, lesão corporal por negligência e incêndio criminoso por negligência” após a tragédia no bar deixar 40 mortos e 116 pessoas feridas.
No momento, eles aguardam os próximos passos em liberdade, com uso de tornozeleiras eletrônicas. Ambos são considerados com risco de fuga pelas autoridades suíças, assim, tiveram seus passaportes apreendidos e precisam se apresentar a uma delegacia de polícia a cada três dias. Eles foram autorizados a permanecer em casa para cuidar de seus dois filhos.
As investigações continuam.


