Diante de um cenário econômico global marcado por incertezas, inflação resistente e aquecimento da economia, os bancos centrais do Brasil e dos Estados Unidos optaram por manter as taxas de juros nos patamares atuais nessa quarta-feira (28/1), refletindo uma postura cautelosa diante dos riscos existentes.
No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu manter a taxa Selic em 15% ao ano, repetindo a decisão das últimas quatro reuniões e mantendo o ritmo de manutenção no maior patamar desde meados de 2006.
Esta foi a quinta reunião consecutiva sem alteração na taxa básica de juros, em linha com as expectativas de economistas do mercado financeiro.
No entanto, pela primeira vez desde o início do ciclo de aperto monetário, o comitê informou que poderá começar a cortar os juros na próxima reunião.
“Em ambiente de inflação menor e transmissão da política monetária mais evidentes, a estratégia envolve calibração do nível de juros. O Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”, diz o comunicado do Copom.
Vale destacar que, caso o cenário esperado — de desaceleração da economia — não se confirme, o comitê pode manter os juros no patamar atual.
A decisão reforça a posição de cautela da autoridade monetária, que monitora atentamente a evolução dos preços, a dinâmica do consumo, a atividade econômica e o cenário externo antes de considerar qualquer movimento de redução da taxa básica de juros.
A inflação acumulada de 12 meses está em 4,26% ao ano, superior a meta de 3% ao ano, mas dentro da margem de tolerância, de 1,5% para cima ou para baixo.
Entenda o que é o Copom, responsável por definir os juros
- O Copom é o órgão do Banco Central responsável por decidir, a cada reunião, se a Selic sobe, cai ou fica estável.
- Ao ajustar os juros, o comitê busca manter a inflação dentro da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN);
- As decisões e comunicações do Copom orientam bancos, empresas e investidores sobre o rumo da política monetária;
- O comitê analisa dados de atividade econômica, mercado de trabalho, contas públicas e cenário internacional antes de decidir;
- Ao calibrar os juros, o Copom busca equilibrar crescimento econômico e estabilidade de preços no médio e longo prazo.
Cenário americano
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) também manteve a taxa de juros inalterada na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano. Essa decisão interrompe o ciclo de cortes iniciado em setembro de 2025, após três reduções consecutivas.
Na comunicação pós-decisão, o Fed optou por não fornecer indicação clara sobre futuros cortes, refletindo uma postura paciente e vigilante diante de um ambiente econômico ainda incerto, especialmente em relação a inflação, mercado de trabalho e riscos políticos e externos.
Esse movimento sinaliza que, mesmo após o alívio representado pelos cortes anteriores, o banco central norte-americano prefere observar por mais tempo os dados econômicos antes de retomar um ciclo de flexibilização monetária.
O mercado financeiro projeta agora que qualquer ajuste para baixo possa ocorrer apenas a partir do meio do ano.
Para a economista Andressa Durão, do ASA, o tom do Fed reforça o cenário de uma taxa de juros parada ao longo do ano.
Diferente do Brasil, no colegiado americano não houve unanimidade, dois diretores votaram pela redução de 0,25 ponto percentual.
Apesar disso, o presidente do FED, Jerome Powell, avaliou que os riscos de alta para a inflação e os riscos de baixa para o emprego diminuíram, mas ainda existem.
Decisão do Copom afeta setores produtivos
Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a cautela defendida pelo BC ignora a queda da inflação e os danos que o atual patamar da Selic causa à sociedade.
“O Banco Central deveria ter iniciado o ciclo de redução dos juros há muito tempo. Ao manter a Selic em nível insustentável, o Copom prejudica a economia, aprofundando a desaceleração do crescimento. É indispensável que a flexibilização da política monetária comece já na próxima reunião”, defendeu o presidente da CNI, Ricardo Alban.
Já a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) afirmou que a decisão tende a prolongar os efeitos adversos já percebidos na economia, ao restringir investimentos produtivos, encarecer o crédito, elevar os custos de produção e comprometer a competitividade da indústria brasileira.
“É necessário uma política monetária mais equilibrada, que consiga conciliar o controle da inflação com o estímulo ao desenvolvimento econômico e ao fortalecimento da competitividade da indústria nacional”, afirmou o presidente da FIEMG, Flavio Roscoe.

