Rombo que Rollemberg causou a aposentados do DF cresce com caso Master

Os alertas feitos por Ministério Público, sindicatos e especialistas de que o dinheiro dos aposentados do Distrito Federal estava sob forte ameaça se concretizaram. Dez anos após o então governador do DF, Rodrigo Rollemberg (PSB), iniciar uma investida que resultou em garfadas bilionárias no caixa do Instituto de Previdência dos Servidores do Distrito Federal (Iprev), a instituição hoje amarga um prejuízo diretamente ligado ao caso do Banco Master: um baque no patrimônio provocado pela desvalorização das ações do Banco de Brasília (BRB).

O primeiro saque de Rollemberg ao Iprev, de quase R$ 1,3 bilhão, ocorreu em 2015. O segundo, de R$ 493 milhões, foi feito no ano seguinte. Para recompor parte do dinheiro retirado dos aposentados do DF, o então governador anunciou a transferência de ações do BRB ao Iprev em 2017. Os papéis, segundo avaliação feita à época pelo GDF, valiam um total de R$ 531,4 milhões. Hoje, essas mesmas ações, impactadas pela depreciação sofrida com o caso do Banco Master, são avaliadas em cerca de R$ 406,5 milhões. Ou seja: em números brutos, o prejuízo, gira em torno de R$ 124,8 milhões.

Mas quando se atualiza os R$ 531,4 milhões que o GDF repassou ao Iprev em ações do BRB, o rombo é assustador. Se o instituto tivesse feito aplicações em investimentos de renda fixa ao invés de lançar a sorte na renda variável, poderia ter lucrado mais de R$ 470 milhões.

Em estimativas conservadoras e levando-se em conta a taxa acumulada do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), hoje os R$ 531 milhões valeriam mais de R$ 1 bilhão, considerando-se 100% do CDI. A projeção é feita pelo Banco Central, na página da Calculadora do Cidadão.

Rollemberg iniciou um movimento que dilapidou as reservas do Iprev, que até então era superavitário. De 2015 para cá, as ações sofreram um movimento contínuo de desvalorização, e caíram ainda mais após a fracassada tentativa de o BRB comprar o Banco Master. A operação de aquisição, anunciada em setembro de 2025, naufragou e se desdobrou em uma sucessão de escândalos. Segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, “podemos estar diante da maior fraude bancária da história do país”.

Hoje, o Iprev convive com um risco crescente de não fechar as contas, o que ameaça a sustentabilidade do Regime Próprio de Previdência Social do DF e a subsistência dos mais de 75.861 mil aposentados e pensionistas que  recebem mensalmente recursos do instituto.

Entenda a matemática por trás do prejuízo no Iprev

    • Em 2015, Rollemberg retirou R$ 1,3 bilhão de um fundo do Iprev-DF, sob a justificativa de pagar a folha de servidores da ativa.
    • No ano seguinte, o então governador fez outro saque temerário, de R$ 493 milhões, para fechar as contas do GDF.
    • Em 2017, Rollemberg anunciou o que chamou de “recomposição” do fundo, com o repasse de 16,47% da totalidade das ações do BRB ao Iprev. O instituto também teve 44 imóveis incorporados ao patrimônio.
    • O Iprev passou a ser dono de 5.996.583 ações, ao preço unitário de R$ 88,62, segundo contabilidade do GDF. A operação, ainda de acordo com o governo local, representou um aporte de  R$ 531.417.185,46 aos cofres do Instituto de Previdência.
    • A operação tornou o Iprev-DF o segundo maior acionista do BRB, atrás apenas do GDF.
    • Em 2024, as ações do BRB passaram por um processo chamado de desmembramento – quando uma ação é dividida em múltiplas unidades. Na ocasião, a proporção foi de 1 para 10. Em outras palavras: quem tinha 10 ações do banco passou a ter 100, sem alteração no valor.
    • Dessa forma, o Iprev passou a ser dono de 59.965.830.
    • De 2015 até hoje, as ações do BRB oscilaram bastante, mas mantendo a tendência de baixa.
    • Quando o BRB anunciou, em setembro de 2025, que compraria o Master, houve uma valorização momentânea dos papéis, mas poucos dias depois, com a sucessão de problemas apontados na operação, as ações voltaram a cair. Desde então, não houve recuperação.
    • Na segunda-feira (19/1), o valor unitário das ações do BRB era de R$ 6,78, segundo fechamento da Bolsa de Valores. O ticker do BRB na B³ é BSLI3 para as ações ordinárias, caso dos papéis de propriedade do Iprev.
    • De acordo com a cotação de segunda, as ações do Iprev-DF (estimadas em R$ 531.417.185,46 pelo GDF há 10 anos) valiam, no fechamento do mercado, R$ 406.568.327,40.
Metrópoles Rombo que Rollemberg causou a aposentados do DF cresce com caso Master
O governo Rollemberg fez dois saques ao Iprev, em 2015 e em 2016: uso do dinheiro de aposentados para fechar as contas do GDF

Análise no TCDF

O Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) analisa o caso. Em um processo aberto a partir de representação feita pelo deputado distrital Max Maciel (PSol), a Corte de Contas aguarda resposta do Iprev sobre potenciais prejuízos ao Instituto de Previdência e às aposentadorias de servidores.

O deputado Ricardo Vale (PT) também pediu explicações ao Iprev sobre os prejuízos aos aposentados. “As operações malsucedidas do BRB reduzem dividendos, afetam diretamente o caixa do Iprev e podem comprometer o pagamento dos benefícios aos aposentados”, afirma o parlamentar.

A reportagem do Metrópoles entrou em contato com o Iprev, mas não obteve resposta até a última atualização desta matéria. O espaço permanece aberto.