Aniversário de Belém de 410 anos: registros históricos revelam a evolução urbana da capital paraense

Nesta segunda-feira, 12 de janeiro, Belém, a capital mais antiga da região Norte do Brasil, completa 410 anos de fundação. A cidade, estabelecida em 1616, passou por uma série de transformações profundas que moldaram sua paisagem visual e seu desenvolvimento ao longo dos séculos.

A expansão urbana da metrópole paraense, desde a sua origem militar até o apogeu do Ciclo da Borracha, está detalhadamente documentada em vastos arquivos. Registros históricos, muitos preservados na Biblioteca Pública Arthur Vianna, oferecem um panorama visual das principais construções e intervenções que marcaram o crescimento de Belém.

As imagens resgatadas revelam a grandiosidade arquitetônica e a rica história que se entrelaçam com a vida cotidiana da capital. Cada edifício, praça e via pública carrega consigo narrativas de épocas passadas, refletindo o dinamismo e a resiliência de uma cidade que soube preservar sua identidade enquanto avançava.

Imagem antiga do Mercado de Carne Francisco Bolonha.
Imagem antiga do Mercado de Carne Francisco Bolonha.Foto: Álbum descritivo do Estado do Pará

O berço da cidade: a fortificação de Belém

Imagem antiga do Palácio Arquiepiscopal,
Imagem antiga do Palácio Arquiepiscopal, Foto: Álbum descritivo do Estado do Pará

A fundação de Belém, em 1616, pelos portugueses, teve um propósito estratégico primordial: resguardar o extremo norte do território nacional contra possíveis invasões estrangeiras. Essa necessidade de defesa impulsionou a construção inicial de um forte, que seria o ponto de partida para o surgimento da cidade.

Localizado no bairro da Cidade Velha, o Forte do Presépio simboliza o marco zero da capital. A partir de suas muralhas, a cidade começou a se expandir progressivamente, com a edificação de residências e de estruturas públicas essenciais para a organização da nova colônia.

Palácio Antônio Lemos e a evolução administrativa

Erigido para ser a sede da Intendência Municipal de Belém, o atual Palácio Antônio Lemos, conhecido popularmente como Palacete Azul, destaca-se como um dos mais importantes marcos arquitetônicos da cidade. Sua estrutura imponente reflete o poder e a influência da administração local ao longo dos anos.

Entre os anos de 1897 e 1911, o prédio passou por uma significativa reformulação, incorporando influências estéticas europeias que o dotaram de uma grandiosidade ainda maior. Mais tarde, nos anos 1950, a edificação foi renomeada como Palácio Antônio Lemos e, desde 1994, cumpre a dupla função de abrigar a Prefeitura e o Museu de Arte de Belém (Mabe).

Ver-o-Peso: um legado comercial centenário

O Mercado Ver-o-Peso, ícone da cultura paraense, teve sua origem em 1625, funcionando como um posto fiscal português às margens do igarapé do Pirí. Sua principal atribuição era controlar o peso e a taxação dos produtos que chegavam à Amazônia, consolidando-se como ponto vital para o comércio regional.

Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1977, o Ver-o-Peso é atualmente reconhecido como o maior mercado a céu aberto da América Latina. Em 2025, o espaço completou 398 anos de história, mantendo sua relevância econômica e cultural.

Devoção e história: igrejas do Carmo e Santo Alexandre

Imagem antiga do Palácio Antônio Lemos, em Belém. Foto: Álbum descritivo do Estado do Pará
Imagem antiga do Palácio Antônio Lemos, em Belém.

A Igreja de Nossa Senhora do Carmo representa o monumento religioso mais antigo de Belém, situado no Centro Histórico. Esta edificação é considerada a primeira igreja da Amazônia, testemunhando quatro séculos de história espiritual e arquitetônica que marcaram a região.

No século XVIII, sua fachada em pedra lioz, singular em Belém, foi meticulosamente talhada em Portugal e instalada por mestres locais, recebendo intervenção do renomado arquiteto Giuseppe Antônio Landi. A igreja continua a ser um símbolo de fé e arte, atraindo fiéis e admiradores de sua beleza singular.

Outro complexo arquitetônico de grande valor histórico é o Palácio Arquiepiscopal de Belém, originalmente fundado em 1653 pelos jesuítas João de Souto-Maior e Gaspar Fragoso como Colégio de Santo Alexandre. Essa instituição desempenhou um papel crucial na educação e na evangelização da época.

Praças de Belém: Dom Pedro II, Batista Campos e República

A atual Praça Dom Pedro II, localizada em frente ao Palácio Antônio Lemos, ostenta uma rica trajetória de nomes ao longo do tempo. No período áureo da Belle Époque da borracha, era conhecida como Largo do Palácio, evoluindo para Largo da Constituição e, posteriormente, Largo da Independência.

Durante a gestão do intendente Antônio Lemos, entre 1897 e 1911, o espaço passou por substanciais transformações urbanísticas. Foram implementados um regato, um tanque de água e canteiros com desenhos irregulares, além de uma densa vegetação que lhe conferiu uma atmosfera de jardim europeu.

No século XIX, a área que hoje conhecemos como Praça Batista Campos era designada como Largo da Salvaterra, propriedade de Maria Manoela de Figueira e Salvaterra. O local foi posteriormente renomeado como Praça Sergipe, até receber seu nome atual em 1897, em homenagem ao cônego Batista Campos, uma figura proeminente da Cabanagem.

A Praça da República, no bairro da Campina, também se destaca como um dos mais emblemáticos e históricos espaços da cidade. No século XVIII, essa área era conhecida como Largo da Pólvora, funcionando como um armazém de munições, um ponto estratégico para a defesa da capital.

Legados institucionais: Distrito Naval da Marinha

O edifício que hoje abriga o Comando do 4º Distrito Naval da Marinha foi outrora o vibrante coração da indústria naval amazônica. No século XVIII, o local sediou a Casa das Canoas, instituída em 1729, estrategicamente posicionada próxima ao Ver-o-Peso, com a missão de construir e reparar embarcações essenciais para a defesa da foz do Amazonas e navegação fluvial.

Pioneirismo na saúde: o Hospital Beneficente Portuguesa

Fundado em 1854 por imigrantes portugueses, o antigo Ospedale Don Luiz I, hoje conhecido como Hospital Beneficente Portuguesa, figura entre as instituições de saúde mais tradicionais e respeitadas de Belém. Sua criação representou um marco no atendimento médico da região, impulsionado pela comunidade portuguesa.

Círio de Nazaré: fé e arquitetura na Basílica

A Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré é um ícone de fé e arquitetura em Belém. Localizada na Praça Santuário, antes conhecida como Largo de Nazaré, o monumento simboliza a profunda devoção amazônica e está intrinsicamente ligada à celebração anual do Círio, um dos maiores eventos religiosos do mundo.

Com impressionantes 62 metros de comprimento e adornada por vitrais que retratam passagens bíblicas, a basílica atrai anualmente milhares de turistas e romeiros. Tombada como patrimônio cultural em 1992, a Basílica de Nazaré oferece visitas guiadas desde 2014, permitindo aos visitantes explorar sua rica história e beleza.

Expansão urbana e logística: Floriano Peixoto e Mercado de Carne

O antigo Largo de São Brás, que hoje se denomina Praça Floriano Peixoto, desempenhou um papel crucial na expansão urbana de Belém durante a efervescente Belle Époque. O local, dedicado a São Brás, era palco de revistas de tropas e servia como um ponto estratégico de conexão entre o centro e a Estrada de Ferro Belém-Bragança, no final do século XIX e início do XX.

Com a inauguração da ferrovia, o bairro experimentou um notável impulso comercial e de desenvolvimento. Em 1911, o Mercado de São Brás, concebido pelo arquiteto italiano Filinto Santoro, foi inaugurado para organizar o abastecimento da cidade, antes predominantemente centralizado no Mercado Ver-o-Peso.

Outro elemento vital para a infraestrutura da cidade foi o Mercado Municipal de Carnes, construído em 1867. Este foi um dos primeiros mercados públicos organizados da capital, com a função primordial de aprimorar a higiene e a distribuição de carne fresca em uma Belém que experimentava um rápido crescimento impulsionado pelo ciclo da borracha.

Urbanização e serviços: Praça da República e Mercado de Ferro

A Praça da República, um dos espaços mais icônicos de Belém, passou por diversas fases. Décadas após sua função como armazém de munições, o local ganhou o Theatro da Paz, um importante centro cultural. Com a Proclamação da República, a praça foi rebatizada, consolidando-se como um símbolo cívico e de lazer.

Paralelamente, a modernização da cidade avançava com a inauguração de novos equipamentos. O Mercado de Ferro, também conhecido como Mercado de Peixe, foi inaugurado em 1901. Este projeto foi um dos marcos da administração do intendente Antônio Lemos, que visava aprimorar a infraestrutura urbana de Belém.

Composto por quatro pavilhões distintos e um mirante central, o Mercado de Ferro foi projetado especificamente para a venda de peixes e frutos do mar, complementando as funções do Mercado de Carne e integrando o complexo do Ver-o-Peso. Sua estrutura e organização contribuíram significativamente para a higiene e a eficiência do comércio de alimentos na cidade.

Expansão viária e cultural: Avenida Magalhães Barata e Curro Velho

A antiga Avenida da Independência, concebida durante a gestão do intendente Antônio Lemos (1897-1911), figura como uma das vias mais importantes de Belém na Belle Époque. Atualmente denominada Avenida Magalhães Barata, essa via preserva uma parcela significativa da história construída no auge da economia da borracha, refletindo o período de grande prosperidade e urbanização.

A criação da avenida, oficializada pela Resolução nº 37 de 1898, permitiu a Lemos a autorização para alargar e modernizar seu traçado. Inspirada nos padrões urbanísticos europeus da época, a via foi arborizada com mangueiras, recebeu pavimentação de alta qualidade e uma inovadora iluminação elétrica, transformando-se em um modelo de urbanismo.

No bairro do Telégrafo, às margens da Baía do Guajará, o antigo Matadouro Municipal de Belém, construído em 1861, foi o primeiro abatedouro público da cidade. O local, popularmente conhecido como “Curro Velho”, fazia referência ao curral onde o gado era mantido antes do abate, um nome que permanece na memória local.

Justiça e sustentabilidade: TJPA e Praça da Cremação

O atual edifício do Tribunal de Justiça do Pará (TJPA) abrigou uma das primeiras escolas profissionalizantes do estado, o Instituto Lauro Sodré, inaugurado no final do século XIX. Essa instituição pioneira capacitava jovens em ofícios artesanais e industriais, contribuindo para a formação de mão de obra qualificada na região.

Por fim, a Praça da Cremação, hoje conhecida como Praça Dalcídio Jurandir, guarda a memória da primeira usina de cremação de lixo da América Latina, inaugurada em 1901 durante a gestão do intendente Antônio Lemos. Desativada no final dos anos 1970, a usina deu lugar a um espaço de convivência revitalizado em 2000, através do Orçamento Participativo, simbolizando a transformação e a adaptação urbana de Belém.