Conhecido como o mês da mulher, março também é motivo de fé e superação para a missionária e escritora Lucélia Rodrigues da Silva, de 30 anos. A mulher, hoje casada e mais e três meninos, foi protagonista de um dos mais emblemáticos de cárcere, tortura e resgate do país.
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Em 15 de março de 2008, há 18 anos, Lucélia era resgatada do apartamento dos pais adotivos, em Goiânia, acorrentada e amordaçada. Cobertas por ferimentos, a então pré-adolescente era submetida constantemente a torturas, chegando até mesmo a ter a língua cortada com um alicate pela ex-empresária Sílvia Calabresi Lima.
Os horrores vividos pela missionária começaram ainda em 2006, quando chegou a casa da agressora e do marido dela, aos 10 anos, depois de ser adotada de forma ilegal por Silvia. Por lá, permaneceu até ser resgatada por meio de denúncias contra os pais adotivos, sendo que Sílvia, então com 42 anos, acabou presa dois dias depois.
“As torturas começaram cerca de seis meses depois que fui adotada. Hoje, eu tiro uma base de um ano e meio de tortura. Os seis primeiros meses foram bons, ela cuidou de mim, me colocou em uma escola como se fosse uma filha. Depois começaram as atrocidades, como cortar a minha língua, me prender nas escadas, me dar fezes de cachorro para comer, abusos sexuais”, relembra.

Depois de ser liberta do cativeiro, Lucélia foi encaminhada para um abrigo, visto que os pais biológicos perderam a guarda dela por cederem a criança à Sílvia e ao marido. Ela morou no orfanato por meses até ser novamente adotada pelo casal de pastores Ezenete Rodrigues e Marcos Rodrigues. Desta vez, de forma legal.
Já em uma nova família, a então criança se mudou para Belo Horizonte, em Minas Gerais. Lá, sob a tutela dos pais, deu início ao tratamento para superar os traumas psicológicos e físicos por meio de psicólogos, psiquiatras e também pela fé.
“Não foi fácil sair de um cativeiro onde vivi todos os tipos de dor e ameaça possíveis. Tinha medo do escuro, não sabia dormir na cama porque aquela mulher me fazia dormir no chão frio. Tive dificuldades para aprender a comer. Ela [Sílvia] não deixava eu comer, me deixava até três dias sem comer. Tinha medo de barata porque ela me fazia comê-las. Na vida adulta tive dificuldades no início do meu casamento devido aos abusos sexuais que sofri”, relata.

Perdão
A escritora afirma que começou a ser curada depois de perdoar a agressora, com quem tinha pesadelos. Desde que foi resgatada, Lucélia se encontrou com Silvia ainda quando criança em uma audiência no processo que investigou a mulher, o marido e a empregada da família. Lucélia, porém, costuma passar em frente ao imóvel onde era torturada devido aos compromissos profissionais.
A ex-empresária foi condenada a quase 15 anos de prisão. Em 2014, a Justiça concedeu o benefício de progressão de pena, e ela foi transferida para o regime semiaberto. Conforme apurado pelo Mais Goiás, atualmente a mulher trabalha como cuidadora de idosos. Assim como Silvia, a empregada dela também foi condenada, em junho de 2008, a sete anos de prisão por participação no crime. Já o marido da agressora pegou 1 ano e 8 meses por omissão.
“Foi horrível aquele dia[audiência]. O juiz me colocou de frente para ela, ainda não tinha sido adotada e nem iniciado o tratamento. Ainda estava cheio de medo, cheia de traumas. Hoje, se ela ficasse de frente pra mim, tenho certeza que a minha reação seria diferente. Ela iria ficar de frente para uma mulher forte, que venceu e superou, não da menininha Lucélia”, afirma.

Superação
Atualmente, Lucélia vive com o marido Histenyo Ferreira e os três filhos, de 9, 7 e 2 anos, em Goiânia. Ela costuma compartilhar a história de vida e superação por meio de palestras Brasil afora e pelas redes sociais. A escritora diz que sempre manteve contato com os pais biológicos.
A mãe, com quem a missionária mantinha uma relação “normal”, no entanto, acabou falecendo vítima de câncer em 2025. O pai biológico, no entanto, continua visitando a filha e também sendo visitado por ela e toda família.
“A minha família é o meu maior presente, foi o que mais sonhei. Conto a minha história em escolas, igrejas e palestras. Vou lançar um livro sobre a cárcere. Hoje eu não sou mais uma vítima, mas uma vencedora. Não tenho raiva, rancor e nem sentimento nenhum por aquela mulher”, concluiu.


